Dia Zero

Paredes de Coura é um festival que vive das surpresas, revelações e sobretudo da música. É essa que marca o nosso caminho em vésperas do festival, quando deambulando pela cidade, nos damos conta dum concerto surpresa, dado pelos Quelle Dead Gazelle. O duo lançou em 2013 o seu EP, surpreendendo os mais distraídos. Miguel Abelaira e Pedro Ferreira, utilizando apenas bateria e guitarra, criam um infernal espetáculo de ritmo no palco do coreto, perto do centro da vila. A sua música bebe de influências variadas, que vão buscar inspiração a estilos tão diferentes como o post-stoner, o math-rock, o afrobeat, etc. Entre outros méritos, a música dos Quelle Dead Gazelle faz agitar qualquer plateia, tal a potência dos seus riffs e a cadência das suas batidas numa valente descarga sonora.

Após a actuação da dupla lisboeta, era então tempo para um longo DJset de Nuno Lopes, inevitável personalidade ligada ao festival que desperta os espíritos mais adormecidos. Foi empolgante e ajudou várias dezenas de pessoas a passar a noite antes do arranque do festival em total euforia no centro da vila minhota. Pelo meio não faltaram versões electrónicas de hits de bandas que marcaram a história do festival como foi o caso de Rebellion dos Arcade Fire. Estes autênticos clássicos misturaram-se com as novas tendências da música de dança como por exemplo Disclosure – uma das bandas da moda – ou os Daft Punk, ainda que tenha tido o mérito de fugir à previsível Get Lucky. A festa estava lançada, numa atuação que simboliza a abertura de um dos mais carismáticos festivais em Portugal.

Dia I

Depois de poucas horas dormidas e da preguiça que um dia de intenso calor proporciona, era tempo de continuar o périplo pelas atuações e pelas descobertas que este festival nos proporciona. Assim, ainda num recinto a meio-gás onde apenas o palco secundário se encontrava operacional, fomos encontrar os Tape Junk. Esta banda tem como protagonista João Correia dos Julie and The CarJackers. Neste seu novo projeto, aventura-se pelos trilhos de folk e outlaw country de inspiração iminentemente americana. As letras abordam assuntos do quotidiano onde a linhagem do rock branco se nota através de assuntos despretensiosos que convergem para temáticas de traço pessoal, que aliás caracterizam o seu disco de estreia chamado The Good & The Mean. O destaque vai para um concerto em crescendo, onde os Tape Junk abriram com o seu lado mais intimista, mas rapidamente o rock mais selvagem tomou conta do palco secundário, até se despedirem.

O Bisonte é um filho da puta que vem do Porto”. Foi assim, com esta agressividade toda, que a banda portuense se deu a conhecer ao público de Coura. Após uma estranha intro com diálogos do Pulp Fiction O Bisonte iniciou a sua debandada pelo palco Vodafone FM abalroando tudo e todos que se lhe atravessassem no caminho. A selvajaria bruta deste animal era espelhada na sonoridade da banda e especialmente no rosto de Davide Lobão – o frontman que catalisa, com a sua atitude irreverente, quase todas as atenções.

Embora, por norma, seja o punk e o hardcore que fazem O Bisonte respirar, outras vezes o animal vira-se para o post-rock transformando a agressividade física do animal em algo mais denso psicologicamente. Essa versatilidade poderia ser um ponto a favor mas neste caso, ao abrandar a velocidade de um concerto que se quer sempre de prego a fundo, este fica um pouco irregular. Apesar desta nossa queixa, o público é quem mais ordena e, a julgar pelos aplausos, braços no ar e rebaldaria generalizada a estreia d’O Bisonte neste paraíso minhoto dificilmente poderia ter sido melhor.

Ao ver uma actuação dos  e a sua capacidade de aplicar jogadas plenas de táctica e recheadas de fintas de corpo, é fácil esquecemo-nos que a banda apenas tem um EP editado. O álbum vem finalmente a caminho e Sofrendo Por Você é o single de avanço. Ao vivo, essa arrastada e espacial lambada electrónica, não deixou o sucesso que alcançou nas redes sociais cair por mãos alheias e contagiou o público num bailarico sem choros ou sofrimento de tipo algum.

Depois de um belíssimo Warm-Up, o quarteto foi convocado para dentro das quatro linhas do festival Paredes de Coura e foi incrivelmente bem recebido com o público a aplaudir entusiasticamente e clamar por mais. Infelizmente, não houve direito a prolongamento, mas ao menos tocaram a Fernanda.

A electrónica ficaria mais exótica, com Luís Clara Gomes ouMoullinex aos comandos da mesa de mistura. Acompanhado por dois abacaxis que poderiam simbolizar a sacarosa da sua electrónica, com um disco-feeling que torna tudo mais gingável e que homenageia criadores como Moroder. Há também ritmos pulsantes que vão buscar influência ao planeta Kitusé e ao house francês. Algures entre beats quentes, vibrantes e heterógeneos, o produtor lança-se pelo groove que contagia a pista de dança. A dada altura apareceu Da Chick para dar voz a doces momentos pop. Surgiram então Take my pain away e uma versão da clássicaManiac, com Da Chick a fazer de Peaches, que dá voz à recriação de Flashdance em álbum. A festa prosseguiu, sempre apelativa a corpos sensíveis e à impulsividade que a batida cria.

A jogar em casa, foram os The Filthy Pigs, dois DJs naturais de Paredes de Coura que fecharam o palco da primeira noite no recinto. Esta dupla “passa” música sempre com a premissa de fazer a plateia disfrutar de novas bandas e canções menos conhecidas. Com a bandeira do concelho em punho, aventuram-se no set. Afinal, será sempre bom lembrar que a premissa desta terra se mantem intacta a cada ano que passa. Oferecer-nos música, mostrar-nos novos mundos dentro dela e festejarmos juntos até a noite acabar.