A estreia musical do último dia de Paredes de Coura deu-se com os Youthless, um curioso projecto formado por um inglês e um americano em Lisboa. Com a presença de um terceiro elemento em palco, com sintetizadores a complementarem voz, bateria e um baixo com um som que mais parece o de uma guitarra, o rock dançável da banda foi uma bela surpresa de final de tarde. Prejudicados por um som excessivamente abafado, os Youthless, guiados por um baterista / vocalista verdadeiramente endiabrado, souberam captar a atenção dos poucos que se deslocaram ao recinto para os ver. O clímax veio com o último tema, com o convite para que o público subisse a palco para uma caótica celebração final.

Curiosamente, enquanto o hype póstumo pelos Ornatos Violeta surgiu em força de forma aparentemente estranha e despropositada, um fenómeno oposto surgiu na música nacional: a existência de bandas rock “nós-queremos-ser-os-novos-Ornatos-Violeta” (com resultados francamente maus) perdeu fulgor e foi substituída por uma diversidade bem maior de registos e influências. Um dos bons exemplos é o dos Capitão Fausto, conjunto de betinhos pós-adolescentes de Lisboa, capazes de fazerem canções pop com piada e um interessante travo psicadélico. Para além das canções mais orelhudas, destaque para a distorção da malha instrumental com que abriram o concerto, para uma incursão electro-pop ou para a fabulosa introdução deMúsica Fria, apenas com percussão e um estranhíssimo instrumento de sopro, a mostrar que a música deste projecto é tudo menos linear. A acompanhá-los tiveram um público devoto, particularmente efusivo no inevitável Teresa. Não há dúvida que os putos são bons e fica a particular curiosidade de perceber o que vão fazer daqui em diante (o tema novo instrumental que apresentaram deixa água na boca).

O lusco-fusco é a melhor altura do dia para um bocadinho de dream pop e chillwave. Essa sonoridade etérea  e luminosa chegou a Paredes de Coura pelas mãos dos Memoryhouse que, depois do sucesso alcançado com The Years EP (e que lhes garantiu um contrato com a Sub-Pop)  gravaram o seu primeiro longa duração – Slideshow Effect.  Denise Nouvion e Evan Abeele encheram os corações dos festivaleiros de nostalgia  doce e conseguiram evocar os Beach House que tão recentemente pisaram os palcos portugueses.

The Go! Team © João Ruivo

Por contingências de agenda, não vimos muito do concerto dosGo! Team. Mas, numa noite onde a sua presença pareceu completamente descontextualizada do palco principal (não só por, de resto, serem todas bandas nacionais, mas também pela questão estética), o cosmopolitismo da banda de Brighton pareceu ter bons resultados. O som esteve demasiado estridente, mas não terá impedido que a fusão absolutamente única e indefinível entre hip-hop, electrónica, uns travos multi-culturais, amálgamas pop diversas de teor jovial e sabe-se lá que mais tenha tido os contornos festivos desejados. Até porque Ninja, a principal vocalista deste amplo colectivo, é uma verdadeira máquina de palco.

Quando, por problemas técnicos incompreensíveis, se percebeu que o espectáculo dos God is an Astronaut não iria ter projecções de fundo, previu-se o pior. Numa viagem sensorial em que é fundamental a fusão entre imagem e som, amputar a primeira significaria, em teoria, destruir todo o conceito previsto para o concerto. Contudo, a realidade soube desmentir de forma bruta qualquer opinião preconcebida. Desde o mais etéreo e lindíssimoFragile até ao mais catártico Route 666, passando pelo introspectivo Forever Lost ou pela aceleração avassaladora deWords in Collision, a banda irlandesa deu um belíssimo concerto num palco secundário repleto de público para os receber. Com um som tecnicamente imaculado e agora em formato de quinteto, com cordas reforçadas, a banda conseguiu ainda, através de aplausos e pequenas variações rítmicas, exercer uma invulgar comunicação com o público num concerto de post-rock, sem retirar a alma e a profunda emoção do género. Se foi tão bom sem imagens, é fácil de imaginar como teria sido épico com elas. Estímulo mais que suficiente para os ver em breve, em Lisboa ou no Porto, segundo o anúncio da banda na parte final do concerto.

Nem os próprios Dead Combo acreditavam um dia pisar o palco principal de Paredes de Coura – foi o próprio Tó Trips quem o confessou -, mas esta dupla cresceu tanto nos últimos anos que a passagem por ali se tornava quase inevitável. Havia dúvidas se o estilo de música que Tó Trips e Pedro Gonçalves praticam encaixaria bem naquele recinto, mais ainda a actuar antes dos Ornatos Violeta. Inteligentes, os Dead Combo apostaram em Alexandre Frazão (exímio baterista que tem acompanhado a dupla nalguns concertos especiais) para dissipar essas dúvidas e, com uma base rítmica fortíssima a catalisar as atenções, as canções fluíam umas a seguir às outras. Ora virados para Cuba e para o Faroeste, ora virados para alguma tribo africana ou viela em Alfama, os Dead Combo estiveram à altura do desafio que lhes foi imposto e, por alguns instantes, fizeram esquecer que a seguir a eles actuariam os Ornatos Violeta.

O histerismo à volta da reunião dos Ornatos Violeta (foto no topo) é desmedido, mas sejamos justos, quer se queira, quer não, este concerto em Paredes de Coura foi um momento histórico para os festivais portugueses. Os devotos dos Ornatos, como seria de esperar, aderiram em massa e acompanharam de forma arrepiante todas as músicas que marcaram e continuam a marcar gerações.  A proposta era a de tocar na íntegra O Monstro Precisa de Amigos– o segundo disco da banda liderada pelo carismático Manel Cruz  – e assim foi. Infelizmente, uma vez que o próprio disco, já de si é algo desequilibrado – tem quase todos os maiores sucessos no início – ao respeitar o alinhamento do álbum, também o concerto espelhou esse problema chegando mesmo a tornar-se entediante do meio para o fim. A situação foi agravada quando, nos encores, os Ornatos se recusaram a visitar o seu primeiro disco (Cão!) e tocar algumas das malhas que poderiam realmente fazer a festa (e.g. Punk Moda Funk). Em vez disso, Manel Cruz e cia. tocaram uma série de raridades algo apagadas que resultariam muito melhor num dos espectáculos do Coliseu se intercaladas por outros temas mais conhecidos. O primeiro concerto dos Ornatos Violeta após 10 anos de inactividade ficará sem dúvida para a história, pena que, apesar do arranque fervoroso, o espectáculo saia um pouco embaciado por um alinhamento mal conseguido.

Dificilmente uma banda que funde na perfeição a electrónica negra e o lado mais melancólico dos anos 80, poderia dar um mau concerto. Assim sendo, a surpresa não está na qualidade do mesmo (mesmo tendo em conta a relativa desilusão no Lux, em Dezembro de 2010 – é que Kill For Love, o disco saído entretanto, é uma verdadeira pérola), mas num certo impulso dançável dos Chromatics, muito maior do que o esperado. Johnny Jewel é um mestre dos sintetizadores e, juntando a organicidade da bateria e dos frequentes baixo e guitarra, o resultado é francamente entusiasmante. Aliás, até o mais contemplativo These Streets Will Never Look The Same, com o quase sempre duvidoso autotune(cantado pelo baixista), resultou bem ao vivo. A vibração só não é maior porque a falta de presença em palco da vocalista Ruth Radelet volta a ser inequívoca. Com uma pose enjoada e uma interpretação pouco dinâmica ou sentida, a sensualidade frágil da voz perde alguma força. Algo que, contudo, não é suficiente para diminuir significativamente temas incríveis, em que se incluem as extraordinárias versões de Running Up That Hill (Kate Bush) ouInto the Black (Neil Young, cujo original se chama Hey Hey My My). Foi bem bom na mesma, mas quando Ruth desabrochar…

Um DJ set com singles de Stone Roses, David Bowie, Arcade Fire ou Prodigy… estaremos no Noites Longas (Coimbra), no Rádio (Porto), no Jamaica (Lisboa) ou num sítio semelhante espalhado pelo país? Não, estamos mesmo em Paredes de Coura, com a londrina Sunta Templeton. Se é certo que é de saudar que, ao contrário do que por vezes sucede, os sets em Paredes não sejam constituídos por electrónica hard completamente desviada do espírito de festival, fará sentido esta proposta? Faz sentido pagar a um nome internacional para passar música, não havendo qualquer conceito, qualquer identidade própria e nem, ao menos, um apuro técnico? Parece-me que a resposta é óbvia, tão evidente quanto a qualidade de algumas remisturas que Nuno Lopespassou novamente no final de noite. É impossível ouvir a destruição de Tamborito Swing, belíssimo tema do Panamá, recuperado pela Soundway, sem apetecer soltar uns palavrões.