Não é segredo nenhum que Noah Lennox vive actualmente em Lisboa. Mas não é por habitar em território alfacinha que as actuações do músico norte-americano em Portugal são mais frequentes e também por isso a sua actuação era o principal foco de interesse desta noite Green Ray da discoteca lisboeta. Este adepto confesso do Benfica (baptizou mesmo um tema do último álbum com o nome do clube) voltou aos palcos portugueses sob o nome Panda Bear para apresentar ao público da cidade que o acolheu a sua mais recente criação: Tomboy. O seu quarto registo a solo, bombardeado com elogios por tudo o que é canto, há muito que fazia crescer ainda mais água na boca, inclusive desde a sua última actuação em Portugal, ocasião em já tinha apresentado alguns temas deste registo, na altura ainda em construção.

Foi pouco depois da hora prevista que Panda Bear subiu ao palco, sem grande aparato, soltando apenas um tímido “boa noite”. Quem esperava de Noah um português fluente e desinibido viria a desiludir-se, já que ao longo da noite saíram da sua boca apenas três palavras na língua de Camões: a já referida saudação e um mais que típico “obrigado”. Quanto ao alinhamento, cedo se percebeu que não haveria surpresas. Esta é uma tournée dedicada a Tomboy e Lennox levou isso muito a sério, fazendo questão de separar as águas: primeiro interpretou o seu mais recente álbum na íntegra, tocando os temas pela mesma ordem que surgem no disco, e só depois enveredou por outros caminhos. Para esta missão convidou Peter Kember, de nome artístico Sonic Boom, responsável pela última fase de produção de Tomboy mas sobretudo conhecido pelo seu projecto Spacemen 3.

Esfumado o efeito surpresa em torno do alinhamento, podia temer-se uma actuação mecânica, previsível e menos interessante. Pelo contrário, com Kember ao comando das “máquinas”, Noah “Panda Bear” pôde libertar-se e dedicar-se quase em exclusivo à guitarra e às melodiosas linhas vocais que são, no final de contas, a principal mais-valia de Tomboy. Com uma performance inatacável, quase sem pausas, Panda Bear foi beber à inspiração que acumulou no disco e acrescentou-lhe ao vivo um faceta mais intensa e orgânica. Arrancou desde logo com os dois primeiros singles do álbum, You Can’t Count On Me e Tomboy, oscilando entre refrões irresistíveis, batidas contagiantes em estilo mais urbano (Slow Motion) e linhas vocais que chegam perto da canção de embalar (Surfers Hymn eLast Night at the Jetty), tudo combinado com a projecção de vídeos e uma iluminação por vezes estonteante, dando a sensação de experiência artística em várias dimensões e criando estímulos diferenciados aos quais o público se mostrava incapaz de ficar indiferente.

Sem fugir à estrutura do álbum e em tom mais ambiental houve ainda Drone, para além da contagiante e orelhuda Afterburner e a fechar Benfica. Um “obrigado” muito reservado deu lugar a uma breve interrupção, uma espécie de encerramento do primeiro acto, que permitiu trazer o anterior registo de originais Person Pitch para o palco, iniciando com Comfy in Nautica a breve sequência final que terminou com Bros, concluindo uma prestação sólida que não só fez jus ao disco como proporcionou momentos de grande elevação. Ricardo Villalobos foi o senhor que se seguiu e a quem coube dar vida a ritmos mais acesos e dançáveis com o seu Dj set. De relembrar que Panda Bear actua novamente em Portugal no próximo domingo, dia 4 de Dezembro, na Casa da Música do Porto.