Obviamente, tudo o que possa circular em torno de Chino Morenodos Deftones e dos defuntos (mas não enterrados, como se poderá concluir pela actividade que os seus membros mantêm paralelamente) ISIS gera expectativa, interesse. Não será para menos. Duas bandas que se firmaram, dentro das linguagens em que cresceram, como vozes singulares dos seus géneros. Não há outros ISIS, da mesma forma como estão para ser inventados uns substitutos para os Deftones, capazes de arruinar um tipo de música devido à nossa incapacidade para lhes reconhecer um lugar único. Felizmente, contudo, não se pode dizer que é disso que vivem os Palms, quarteto que retira o peso post-metal dos autores de “Oceanic” e vai buscar a dissonância mais hipnótica de Moreno, num trabalho tão ambiental quanto é possível no rock.

Não nos enganemos, a voz de Moreno é única e associamo-la depressa demais aos Deftones, mas a linguagem de “Palms” não é a de um Carpenter — é o esforço de três músicos munidos de argumentos para fazer post-rock sem caírem nos cânones aborrecidos e ultrapassados do género (Clifford Meyer já demonstrou isso no mais recente longa-duração de Red Sparowes), graças a uma identidade muito própria que cada um deles desenvolveu. O baixo de Caxide, talvez mais do que nos ISIS, encontrou o ponto de equilíbrio perfeito para a sua faceta mais etérea, menos musculada, enquanto meio de ligação entre as melodias de Meyer e as baterias de Aaron Harris livre de riffs, com o condão de Moreno a evidenciar os seus traços mais melódicos.

O single de avanço “Patagonia” já demonstrava uma tendência para o anti-climax hipnótico e para o embalo psicadélico, algo que “Mission Sunset” acaba por contrariar ao atingir intensidade e peso sem recorrer às distorções e ao growling dos géneros pesados; uma intensidade de composição, de crescendo musical ponderado e de química evidente entre executantes. “Shortwave Radio”, a música mais ISIS, deixa evidente o lado mais progressivo dos autores de “Wavering Radiant”, com um trabalho de guitarra a destoar da fluidez do resto da faixa, sem destabilizar a coerência do resto. Por isso mesmo, a música dos Palms não é intuitivamente cativante; é discreta nas suas insinuações e é exímia na forma como se impõe, pela falta de defeitos a apontar.

Admitamos, os Palms são uma daquelas poucas super-bandas que não têm nada de mal. Não vivem à sombra dos seus nomes, não tentam ser mais do que o que são e não são fruto da preguiça dos seus membros, antes pelo contrário. Sem o pretender, encontraram meritoriamente o seu lugar — pode não ser nos tops de melhores do ano, pode não ser nos melhores discos de sempre, pode não ser nas bandas mais excitantes da próxima década, nem da década passada; será, com toda a certeza, naquela resma curta de bandas que contou uma estória demasiado longa como deveria ser contada: só com o que importa ouvir, e só com o que fazem bem.