Ainda antes de se iniciarem as hostilidades e de o convento abrigar a lotação esgotada que estava prestes a receber, já o improvisado local de concertos era movido por um constante feedback, mostrando qual a base de entendimento que ia coordenar as duas actuações.

Directamente proveniente do solo australiano, Oren Ambarchimostrou, que apesar de ser cada vez um tema mais frequente, a exploração da guitarra continua a ter muito por onde se difundir e ser praticamente infinita. Na verdade, se não se estivesse a falar de música, entender uma construção para prosseguir na sua desconstrução, poderia levar à conclusão de que se tratava de uma tarefa ingrata. Contudo, com Oren essa acção não levou à ruína, pelo contrário, presenciou-se a atribuição de riqueza e novos constituintes ao som momentâneo criado pela guitarra eléctrica. Assim, ao invés de uma simples descaracterização, aquilo que emanava das cordas e maquinaria do australiano, tratava-se antes de criação, sendo esse o ingrediente permanente.

A clareza instrumental foi objectivo que com Oren Ambarchi não se assistiu. Raramente o som foi limpo e, quando assim foi, a preocupação principal era a sua rápida mutação em algo conspurcado. Sentado, de guitarra ao colo e de frente para a mesa de operações, o percurso por sinistros corredores de som transformou-se na maioritária obra sonora

Encarando aquilo que foi proposto, não se torna difícil perceber porque as colaborações com os Sunn O))) se tornaram cada vez mais regulares. Por baixo de tanta massificação é importante que alguém consiga conferir o ofício da ambientalidade. Oren Ambarchi é essa personagem e, com um simples toque na corda da sua guitarra, conseguia progredir, transformar e dissimular quase perpetuamente aquilo que seria o produto inicial desse acto.

Na primeira parte, Rafael Toral e o seu Space Collective 2 difundiram, como habitualmente, uma peça de complicada absorção. Operando com instrumentos de captação de frequências electromagnéticas, a dificuldade de entendimento foi frequente. De facto, perceber a musicalidade que provinha do duo tornou-se a tarefa principal. Completamente fora do usual, se existe artista que poderá reclamar o trono da música exploratória, Rafael Toral será um deles.

Sem continuidade, trabalhando com partículas dispersas, as pausas e os silêncios acabaram por não permitir uma sensação de constância e de tornar danoso o conteúdo total. A distribuição aleatória de pequenos sons e ruídos, acabou por lembrar imensos conteúdos que nos chegam por via das mais casuais actividades diárias e, será desse factor que proveio o maior interesse e associação ao quotidiano circulante e passageiro de cada um por variados ambientes. Formas sonoras servidas ao desbarato, sem conexão aparente entre si e com uma casualidade temporal. Complicado sim, intrigante também.