EITRTropa MacacaStephen O’MalleyDamo Suzuki & Sunflare e Oneida num cartaz em que as palavras música e exploratória davam o mote, num sábado à noite no Barreiro, perto do rio, num recinto debaixo de um viaduto que parecia um misto de bar dos Bombeiros Voluntários de Lamego (com troféus de campeonatos de damas e tudo!) com o ginásio liceal? Tudo isto envolto numa atmosfera suburbana com um pico de decadência, mosquitos canibais importados dos pântanos americanos e cerveja barata? Estou nessa.

Pela ordem acima anunciada, os EITR (que é como quem diz Pedro Sousa e Pedro Lopes) encarregaram-se não só de abrir hostes, mas de personificarem vividamente o espírito do Out.fest: a exploração. Com dois gira-discos (Lopes) e um saxofone (Sousa), a missão dos EITR é a busca do etéreo e ao mesmo tempo do harmónico, caminhando por terrenos desbravados mas ainda desconhecidos como o minimalismo, o drone La Monte-iano e algo que, à falta de melhor palavra, descreveria como tribalismo urbano (os ruídos emitidos pelo gira-discos e pela leve percussão neles exercida leva-me a esta expressão). De facto, ficou notóri a urgência em arrancar para o movimento seguinte, sempre em improvisação e nervo. Um duo para seguir de perto e com vontade, que começou da melhor o sábado à noite. Só ficou mesmo a faltar que o saxofone tivesse arrancado mais cedo e de forma mais feroz.

Por entre o rebuliço de ir descobrir a marca da cerveja que por ali se vendia, os Tropa Macaca subiam ao palco. Outro duo, mas este à base de guitarra e teclados. Ou seja, feedback, distorção, reverb, delay (e praticamente todo o tipo de efeitos e brincadeiras que é possível sacar de uma pedaleira e de um bom par de mãos) e uma electrónica que piscou o olho ao drone – bom, pelo menos durante alguns minutos… Não que aos Tropa Macaca faltem ideias, pelo contrário: de fora até pareceu que as tinham em demasia, sendo até mais concretos que os EITR. Não que os Tropa Macaca não saibam o que fazem: as incursões lá por fora e o estatuto de quase culto que ganharam provam o contrário. Mas do ponto de vista de quem estava no público, a ideia que ficou era de que as transições – e principalmente a inserção das batidas electrónicas – eram feitas de forma demasiadamente crua e fria. Não sabendo ao que eles vão e desconhecendo as suas intenções, dir-se-ia que os Tropa Macaca atravessam uma crise de identidade.

Foi mais ou menos nesta altura que Damo Suzuki apareceu de repente… na bancada de merch. De braços cruzados e sorriso largo, o pequeno japonês que liderou a melhor banda de sempre (toda a gente sabe que são os Can) parecia avaliar o público do Barreiro, como quem procura saber se aquela massa humana estava preparada para a descarga eléctrica que se avizinhava. Teve tempo para o fazer, Suzuki. É que entretanto, os vidros do ginásio do Grupo Desportivo “Os Ferroviários” começaram a ameaçar estilhaçar-se espontaneamente. Sim, Stephen O’Malley estava em palco.

Voltar para aquele ginásio era como entrar directamente para o centro de um tornado. Era difícil ter os olhos abertos e fugir ao desconforto e ao torpor que ali dentro se vivia, mas se a memória não me atraiçoa havia qualquer coisa como oito amplificadores em palco – fora a munição, que estava toda ao serviço do homem. E a invocar aquele paredão de som (sim, paredão; a parede do Spector é para meninos do infantário) com que nos debatíamos estava simplesmente uma guitarra. O’Malley é, ao lado de Greg Anderson, um dos grandes responsáveis por se ter confinado o teoricamente infinito drone de La Monte Young num espaço físico limitado – se bem que adaptado à lentidão exigida – e pronto para o “consumo”. Mas fá-lo, como já se sabe, num volume que vai bem para além do 11 e que, na sua dilatação e expansão sónica (e subsónica) é responsável por fazer vibrar vidros, causar tonturas, fazer comichão e desiquilibrar o mais obstinado dos homens-estátua. A actuação de O’Malley, mais do que um concerto, é um pesado, lento e desconfortável teste à resistência dos limites do ouvido humano e um explorar audacioso (e até estético) das fronteiras do som – a sério, até onde é que se pode aguentar um acorde e esticar o feedback sem fazer toda a gente fugir? A julgar por sábado à noite, a resposta é por volta de uma hora – ou uma garrafa de vinho. Mas podendo, eu não me importava de ter a guitarra do O’Malley a rugir todas as noites.

Diz um mito de mau gosto que não há asiáticos idosos, ou que pelo menos eles não se vêem muito. O mesmo mito diz que eles são enterrados em casa ou, pior, que são transformados em chop-suey no restaurante da família. Mas depois de ver o Damo Suzuki em palco, eu tenho outro mito para lançar: os asiáticos, à semelhança dos vampiros, do Sean Connery e do Duncan McLeod não envelhecem. A sério, o homem já leva 61 anos e é a personificação do rock. Com a companhia da máquina de fuzz que são os Sunflare – mui promissor trio deste nosso jardim à beira-mar plantado -, Suzuki chegou a parecer sentir e aproveitar melhor a intensa descarga de electricidade que se produzia incessante e incansavelmente. Se já se esperava que o trio aparecesse em grande forma (quer pela idade ou pela criatividade), não havia muito que deixasse antever que Suzuki ia ser um dínamo de energia tão positiva.

Damo serve-se da voz como um instrumento sempre presente – como de resto já é seu apanágio –, não se coíbe de saltar e arranhar as cordas vocais como quer e lhe apetece e apesar da pequena estatura enche o palco como poucos. Ao seu lado, os Sunflare não páram: é riffs do demónio, é um jogo de pogo protagonizado pelo baixo, é uma bateria imparável que abre caminho por ali fora e espanta a exploração lenta das actuações anteriores. E, ao seu lado, os Sunflare brilham e também eles merecem aplausos. Mas, se me permitem, o maior aplauso vai mesmo para a personalidade carismática que de sorriso rasgado e polegares em riste, agradece calorosamente uma e outra vez. Isto é um cliché, mas daqui a uns tempos vai saber bem dizer “eu estive lá”. E com sorte, este concerto também ficou gravado.

Exausto, mas realizado o barco chamava para o regresso a Lisboa e deixava o concerto de Oneida por ser visto e revisto. Os ecos que chegam são óptimos e deixam um amargo na boca por pertencer à outra margem. Mas nós não vos falhamos e fomos vê-los ao Porto.

PS: à miúda que teve um momento de nostalgia às custas da minha t-shirt de Sonic Youth – tenho uma mais!