A editora Constellation estendeu o radar para uma sonoridade que rompe um pouco com o seu cardápio de excelente pós-rock experimental.

Os Ought são uma banda pós-punk, com uma secção ritma cheia de groove e melodias em formato contracorrente. O vocalista Tim Beeler, assume-se como líder carismático, seja pelo seu timbre, seja pela forma como torneia as palavras e as melodias. O facto de ter um passado como escritor leva-o a dar uma intensidade/importância extra às palavras. Nota-se a sua facilidade em contar histórias que encontram o amparo ideal numa banda extremamente coesa. Podemos situar o seu registo próximo de um David Byrne e os jogos de palavras na linha de vocalistas como Pete Simonelli dos Enablers ou Eugene S. Robinson.

Os Ought são uns agitadores que não se incomodam ao abanarem as ancas em prol do rock. Neste disco não se cansam de baralhar ritmos e melodias, fazendo-o sempre à flor da pele e trazendo à memória os enormes Fugazi.

Apesar de o grupo ter surgido em pleno clima de rebelião estudantil no Canada, com os protestos a irromperem as ruas (motivados por acréscimos no valor das propinas), o inconformismo deles vai para além da agitação estudantil (por vezes anárquica). Cada palavra carrega um duplo sentido e fazem-nos querer entender o que se diz para além do que se toca. Os Ought evitam distorções ou rebeliões sonoras, o que lhes dá um registo mais indie rock e menos hardcore. Não quer por isso dizer que falta energia a este disco, as variações rítmicas e as guitarras em libertinagem melódica estão aqui para provar o contrário. Mais do que tentar revolucionar aquilo que já se ouviu no campo do pós-punk/indie rock, é o inconformismo e a espontaneidade que tornam este disco viciante.

Nos dias em que a dormência social reflete o deserto político, grupos como Ought ou Cloud Nothings servem de banda sonora para uma juventude que não quer adiar/penhorar mais aqueles que podem ser os melhores anos das suas vidas.