Orelha Negra deixou a sua marca no centro histórico de Lisboa: tingiu as paredes de um groove tão frenético quanto aconchegante, criou múltiplos cenários condensados em samples e beijou a plateia com o que de melhor se faz por cá. Tudo isto num jam contínuo, sem tempos mortos, onde se despejou, aqui e ali, pedaços de MC HammerThe RootsDe La SoulSnapBeyoncéDee Light, entre outros.

Cinema São Jorge, apesar de mítico, pareceu pequeno… Pareceu? Foi pequeno! Não chegou para a demanda. Os bilhetes voaram e houve quem ficasse de fora – o baterista Fred ainda conseguiu arranjar bilhetes a dois jovens que ostentavam um cartaz a avisar que compravam ingressos… Saúda-se a camaradagem.

E o facto de a lotação ter ficado esgotada é sintomático daquilo que Orelha Negra já vale em Portugal… Nem a capital, nesta revisita depois do concerto do Lux, se fez rogada a nova actuação do quinteto. Os créditos da banda são reforçados a cada chorrilho de elogios. E alguns deles (maioritariamente elogios de críticos musicais) foram compilados e servidos como introdução para um gig de quase 90 minutos. Estavam feitas as honras da casa; e estava também na hora de dar corda à Memória.
Não tardou a que se chegasse a uma conclusão (mais ou menos) unânime: aquelas cadeiras não ajudavam a que o corpo lidasse com o jazz funky de Orelha Negra. Bastaram apenas as vibrações de Barrio Blue para se perceber isso. E assim que chegou o primeiro medley, trajado a homenagem a alguns dos hits mais famosos dos últimos anos/décadas, a vontade de ficar sentado já não era muita.

A viagem prosseguiu, obviamente centrada no homónimo álbum do grupo, o único lançado até ao momento. Da raiva imposta por Fred em 961 696 169 – que o levou a partir uma baqueta – às referências a DJ Shadow (músico americano que elogiouOrelha Negra no seu twitter), o concerto foi levado para um nível lancinante, cujo primeiro apogeu seria conseguido com M.I.R.I.A.M., uma das faixas-rainha do projecto. Alicerçada numa vibe trip-hop, capaz de provocar inveja a muitas bandas consagradas no estilo, M.I.R.I.A.M. arrancou não só gritos de quem já embevecido dançava, como muitos corpos dos bancos do São Jorge.

Estava lançado o repto para um final de actuação em pura efervescência rítmica, com destaque claro para o incrível baixista Francisco Rebelo, qual Marcus Millerportuguês. Nem uma hecatombe seria capaz de parar os cinco músicos. Blessed foi prontamente seguida por A Cura, duas das faixas mais amplamente conhecidas do grupo. Um duo dinâmico que levou o São Jorge a aplaudir de pé, enquanto os músicos por entre o breu se retiravam, numa falsa despedida.

Poucos minutos depois, estavam de volta ao palco grisalho do Cinema da Avenida da Liberdade. Lançaram-se na Saudade, mas, infelizmente, os problemas com o baixo impediram que a música fosse tocada na sua totalidade. Sem demoras, partiram para mais um medley, com passagens da artista nigeriano-alemã Nneka, medley esse que acabou por desaguar nas águas agitadas de We’re Superfly, faixa final do disco de originais – do qual apenas ficou por tocar Tanto Tempo (que até estava incluída no setlist) e Tripical. Serviu também de término ao concerto, numa altura em que a maioria já estava de pé. Os restantes levantaram-se logo de seguida para uma das mais belas reciprocidades que existe entre o artista e o apreciador: o aplauso.

Sam The KidDJ CruzfaderFrancisco RebeloJoão Gomes e Fred Ferreira. Da experiência fazem inovação. E a prova empírica de que Orelha Negra é coisa para levar a sério foi distribuída cabalmente a quem teve oportunidade de os contemplar no Cinema São Jorge.

Setlist:

A Memória
Barrio Blue
Lord
(Medley)
A Força da Razão
Futurama
961 696 169
(Medley)
M.I.R.I.A.M.
(Medley)
Blessed
A Cura
———————–
Saudade
(Medley)
We’re Superfly