Nos anos 60, os Beatles levaram o sotaque polido e educado a todo o mundo, invadiram todos os mercados e ganharam tudo o que havia a ganhar. Em 2013, no Primavera Sound do Porto, foi a cordialidade que melhor fez efervescer os sentimentos na audiência de quase 20 mil pessoas que estava em romaria pelo Parque da Cidade da Invicta. Foi a british invasion 2.0, liderada por um James Blake de duas cidades e por uns Dead Can Dance do mundo inteiro (a vassalagem à rainha, na Austrália, ainda se presta. O Nick Cave, que muitas cartas deu, pode corroborá-lo).

Com um arranque sincronizado com a meteorologia, não se pode dizer que algo tenha aquecido no recinto do festival até à chegada de Brendan Perry e Lisa Gerrard. Foram uns Guadalupe Platasem argumentos para fazer o seu blues resultar, que peca por repetitivo e mal cantado; foram uns Merchandise a fazer o rock mais batido e a tentar quebrá-lo com umas guitarras ruidosamenteMy Bloody Valentine (a diferença está, pois claro, a léguas de distância); e foram uns Wild Nothing que, apesar de representarem uma óbvia subida na qualidade da música, não serviram para abstrair a audiência do frio que a fustigava.

A América do Norte, que tanto tem controlado o mercado da pop, perdeu esta disputa territorial para os enviados de Sua Majestade, e nem Kim Deal com os seus aborrecidos Breeders, nem Bradford Cox e companhia com a Pitchfork inteira a soprar-lhe nas costas impediram uma pequena vingança histórica. A independência não lhes serviu de muito no Primavera Sound.

Children of the Sun, ainda só com a metade masculina dos protagonistas de Dead Can Dance em palco, confirmou o que já tinha ficado claro dias antes, em Lisboa: há o sublime, há o subtil, há o belo e há o catártico. Depois, há os Dead Can Dance, que conseguem confluir tudo isso numa expedição digna de Marco Polo, a percorrer todo o Mare Nostrum, ora explorando o paganismo balcânico (pela música grega Ime Prezakias), ora para ir à Pérsia que já a Salomão servia de alavanca para a Índia. E, por momentos, os tapetes voadores das lendas eram uma realidade tangível, assim como a levitação pela meditação e o vazio pelo encantamento da voz de Lisa Gerrard.

Os mortos dançaram em palco, na celebração da cultura humana sem fronteiras que sempre foram os Dead Can Dance. Este ano, fica claro que na qualidade de veteranos estão capazes de impor, e não por causa do curriculum (prevendo já que é esse o argumento dos Blur, para hoje). Pesa o génio, que ainda está evidente em Anastasis, editado em 2012.

Nick Cave, o maior defensor do bigode, desafiou todas as regras do festival hipster por excelência e deixou o seu numa pia, algures na Austrália. Não foi apenas esta a conduta quebrada pelo australiano, que arrancou o concerto em completa acalmia – perpetuando por mais uns minutos a sensação catártica de quem tão bem o precedeu – com os singles We No Who U R e Jubilee Street, do mais recente Push the Sky Away, a fazer as honras do concerto. Foi, de resto, uma névoa dissipada com o caos de From Her to Eternity que, fora o fecho da faixa-título do novo álbum, marcaria o registo de um concerto que teve de tudo o que importa no rock – inclusivamente uma queda aparatosa de Nick Cave; os chamados “ossos do ofício”. Foi a força da maturidade a actuar sobre uma audiência em merecido alvoroço.

Blake seria uma das maiores dúvidas do festival. Overgrown, sublime novo álbum, de batidas geralmente lentas e uma sensualidade mais, parece, caseira, não parecia talhado para o open air, mas a nova sensação britânica fez por justificar a atenção que lhe tem sido dedicada – merecida, acrescente-se. O início do concerto teria de disputar a atenção da audiência com uns eléctricos, ainda que pouco convincentes, Deerhunter e os graves, gravíssimos, a soar desde bem cedo marcaram metade da dupla passada de Blake, que ora exala o ritmo frenético de sul londrino, de onde vem, ora o ambiente pub de Bristol, com uns toques mais lentos a relembrar o trip-hop. Invariável, foi o registo soul, cravado na alma, que namora languidamente com os compassos de músicas como Air & Lack Thereof, a abrir, nos dois sentidos da expressão, Digital Lion e Voyeur, e com as mais bucólitas Limit To Your Love (cover de Leslie Feist), Overgrown e, o encerramento óbvio, Retrograde.

Londres pulsa em James Blake e isso torna-se evidente com a gestão do ritmo do concerto do britânico. Londres, ao contrário de Nova Iorque, dorme. Fá-lo sem desaparecer. Os arranjos das canções, mais assentes na percussão e nas frequências baixas, foram um trunfo jogado de forma sublime ao longo de todo o alinhamento. E a despedida a isso soube. Pediu-se, justamente, mais, mas o gosto nostálgico da última música ainda pesava no paladar, encerrando um primeiro prato com a classe inglesa, sem se ficar pela vulgaridade insípida do peixe com batata.

Admita-se, a noite foi dos britânicos e dos australianos. E já que o rei apareceu sem bigode, god shave the queen.