Uma vista de olhos passageira, rápida e desatenta ao programa do Optimus Alive deste ano dificilmente nos prende a atenção. Mas ao olhar duas e três vezes descortinamos muito para além da presença do Tio Iggy. Em abono da boa verdade, ao quarto olhar percebemos que o palco Super Bock é uma excelente montra de bandas. Uma montra igual àquelas que exibia um boneco do Son Goku, a última caderneta de cromos da 1ª liga ou simplesmente um saco de berlindes mais brilhantes que os nossos e nós, putos de joelhos esfolados, ficávamos do lado de fora e dizíamos “mãe, eu quero!”. É claro que normalmente íamos para casa de mãos a abanar ou, na pior das hipóteses, levávamos um pirolito ou um gelado – sem ser de gelo, que faziam mal.

Traumas de infância à parte, o palco Super Bock mostrou no segundo dia um equilíbrio quase perfeito. Sem como nem porquê, os Crocodiles entraram em estado de arromba. Sem quererem saber do vento – que até ajudou ao número psicadélico -, arrancaram segura e tranquilamente uma actuação muito cool. Cool é como quem diz um som declaradamente veraneante, com intenções psicadélicas e um flirt de férias com os Jesus & Mary Chain. Foi bom e quase ajudou a esquecer o falsete dos Everything Everything que, quando era perceptível, tornava-se irritante.

Menos mal, a seguir viria o melhor momento do festival até hoje. Este dito “melhor momento” só não leva letras maiúsculas porque ia ficar mal no arranjo do texto, mas Seasick Steve merecia tudo isso e muito mais. Com uma barba de vida longa e gente sábia, pele crispada pelo sol e tatuagens de linhagem marinheira do costado americano, este Mestre, este Senhor mandou tudo pelos ares – literalmente. Muito provavelmente ninguém estava preparado para este assalto feito por um antigo sem-abrigo e o seu companheiro de longa data que violentou uma bateria apenas e só para depois a detonar. Tudo neles era um espectáculo. As barbas sábias, o vinho tinto, a atitude de deslumbramento por estar em palco, as guitarras feitas de paus e pregos velhos, fosse com três cordas ou apenas uma. Não há regras, além daquelas ditadas pelo blues ancestral, aprendido estrada fora. Steve fez questão de nos contar que tem descendência portuguesa e fez ainda mais questão de, qual velho bardo, qual velho lobo do blues, expurgar os seus demónios (ou empossa-los, porque só assim conseguia violar a guitarra com tanto amor) através da música. Steve saiu de casa há décadas para não voltar, depois de ter desistido de matar o namorado da mãe que lhe batia. «Tive uma revelação. Uma aparição disse-me ‘meu grandessíssimo cabrão’ – foi quando eu percebi que não era Jesus – ‘se o matares vais passar a vida na prisão’. E eu saí de casa aos 14 anos e levei a guitarra comigo. Não fui à escola, mas tinha a guitarra sempre perto». Cheio de calo, com uma técnica brutal e um slide imparável, este homem é a história do blues de estrada, sujo, daquele que se houve em tom redneck numa roadhouse americana, e que personifica a nossa ideia de mestre sábio. Com o público incendiado e enérgico como ele (mas ele sempre mais), por quarenta e cinco minutos Algés virou deserto – o pó ajudou uma vez mais – ou alto mar e Steve só deixou o palco quando viu partes da bateria no chão. Um abraço fraterno em palco e uma ovação tremenda e ensurdecedora foi o que bastou para aclamar um momento que se quer repetir.

Depois disto, os britânicos Bombay Bicycle Club não eram nem podiam ser adversários à altura. A pop básica destes rapazes é mais hype (lá fora, não cá) que outra coisa e chegou a apetecer ir cantar Chuva Dissolvente com os Xutos & Pontapés… Estou a brincar, não apeteceu, mas havia nos BBC demasiadas regras. Um contraste quase chocante e analgésico depois de Seasick, que motivou uma volta ao recinto para ver como paravam as modas. Gente, rios de gente, que vinham ver Dave Gro… perdão, os Foo Fighters e que pululavam aqui e ali. «E agora, vamos ver o quê?», perguntava um transeunte de cabelo tingido ao amigo «Pá, Primal Scream? Vamos mas é comer e esperar pelos Foo Fighters». Podia ser uma boa ideia, mas Bobby Gillespie acenava com Screamadelica tocado de uma ponta à outra e nós não podíamos resistir. E valeu a pena. Os anos mal pareciam ter passado, quer na banda quer no público, visivelmente mais velho que no início da tarde. Este álbum, rodado em casa, já é um sonho molhado, uma peça dançável extremamente viciante e em palco cresce com apontamentos psicadélicos dilatados até mais não, maximizada ainda pela atitude “24 Hour Party People” da banda: spandex, lantejoulas e movimentos andróginos. Há muito carisma, há arranjos visuais que cativam e uma espécie de ambiente xamânico imposto pelo groove de temas como Higher Than The Sun – a escola dos Stones em início de carreira está viva.

Continuar a contar a noite a partir daqui fica difícil, acima de tudo porque se trata de recordar uma memória que já me é querida: o Tio Iggy estava em palco, ladeado pela melhor banda do mundo (os Stooges, febris e contagiantes, pois claro) e a entrada a rasgar com Raw Power não deixava adivinhar nada menos do que um motim (pun intended) e foi precisamente isso que tivemos. O olhar de louco e aluado esteve lá, a pose descompensada e os ossos mais rock n roll de sempre também, a atitude de «que se foda tudo» não faltou… Iggy é a prova viva – e bem viva – de que o rock dá saúde e faz viver. Sem perder um segundo, o Tio atirou-se de cabeça a uma performance que está ao alcance de poucos. Foi vê-lo desbravar Search and Destroy, Riot ou Your Pretty Face is Going To Hell numa hora. Qual história viva, em constante movimento, o Tio recusa-se a deixar os 65 anos chegarem até ele. De tronco nu, sequinho como poucos, não se limita a cantar ou a descer até perto do público. Ele faz poses, dança como um alvo de exorcismo, provoca o contacto, desafia as convenções e traz gente para palco, mas acima de tudo faz o que pouca gente faz: provoca-nos. Nunca mostrou um pingo de simpatia, hostilizou os festivais, a música pop e comercial e chegou mesmo a mostrar um manguito (ou pirete, que em linguagem gestual é quase “vão para o caralho”). Quem não o conhece, respondeu da mesma forma; quem o acompanha desde o berço olha para Iggy como uma figura familiar, que faz parte da nossa vida faz tempo e com quem vamos jantar no próximo domingo. Ele, lá no fundo, gosta de nós. Mas também nos odeia. Ele na verdade quer fazer aquilo que lhe apetece e é por isso que em I Wanna Be Your Dog vocifera como um cão, se põe de quatro com o fio do microfone na boca e, por fim, depois de correr palco de ponta a ponta, deita o suporte do microfone ao chão, com estrondo. Tio Iggy, já te disse que és o maior?

Quando Dave Gro… Os Foo Fighters subiram o palco, o êxtase de ver os Stooges mais sedentos de motim que eu ainda não tinha passado. A zona de conforto em que a banda do ex-Nirvana – já irrita usar esta expressão sempre que se fala do Grohl, não acham? – se move, parecia desadequada e aborrecida naquele momento. Mas Grohl e companhia são aquele grupo de miúdos que na nossa primária jogava Magic e cresceu para sacar riffs orelhudos e crescer para cima de uma bateria como ninguém.White Limo e Stacked Actors foram pontos altos e sujos, a fazer lembrar Lemmy Killmister. A vénia verdadeira vai para a presença do inigualável Pat Smear em palco (Vagina Dentata, alguém?), porque a carreira longa e recheada de músicas dos norte-americanos – como fez questão de salientar Dave Grohl – criou uma zona de conforto demasiado grande que acabou por torna-los enfadonhos.

Duas horas e meia, foi o tempo que os Foo Fighters se aguentaram em palco e durante o qual os Buraka Som Sistema abanarem as entranhas do palco Optimus Clubbing e dos Teratron levarem a cena e não a palco “As Cobaias”. A nova banda de João Nobre é uma encarnação crua e industrial de uma história escrita por Adolfo Luxúria Canibal, que também subiu a palco para ser o demónio de sempre e vociferar um pouco mais as palavras do apocalipse. Por trás, uma banda pesada, a fazer lembrar Prodigymas mais musculados e suportados por projecções e animações vídeo e, claro, vários vocalistas. SP Wilson foi o mais presente na segunda metade do concerto – já com Adolfo Luxúria misturado na multidão – e, depois, metade dos Expensive Soul representada via vídeo.

Se houvesse mais gente por ali, o aquecimento para Bloody Beetroots e para espantar o frio tinha sido o ideal. Assim, ficou “só” um excelente esforço, muitos graves e um espancamento auditivo que valeu a pena. Já agora. Adolfo, obrigado pelo isqueiro.