Numa espécie de sonho molhado para muitos e numa espécie de pesadelo para outros (já lá vamos), quiseram os deuses que o universo se alinhasse para que a Incrível Almadense recebesse na mesma noite Pain of Salvation e Opeth, duas bandas cujo percurso versátil tem sido mui aplaudido nos últimos dez anos.

Ora, se aos segundos basta o seu nome mencionado para se fazerem ouvir hurras de aprovação e devoção, aos primeiros faltava uma actuação decente e que lhes permitisse a conquista definitiva do apreço português. Uma actuação como a de domingo à noite (o sonho molhado), em que toda a gente na banda soube agarrar a oportunidade que teve para conquistar este pedaço de Portugal.

Em palco, as faixas roufenhas da dupla Road Salt – sejam elasSoftly She Cries, Linoleum ou No Way – revestem-se de um peso extra a que só o mais ignóbil dos espectadores terá escapado. Orelhudos, quase radiofónicos, os Pain of Salvation mostraram um empenho raramente visto em bandas a quem cabem honras de abertura.

Neste campo é impossível não destacar Daniel Gildenlöw, vocalista e guitarrista (o primeiro em algum tempo que vemos a dedilhar uma guitarra eléctrica), dono de uma voz tão versátil como a carreira dos Pain of Salvation. Durante 50 minutos fez questão de ser o espelho visível da boa disposição que reina na banda e não se coibiu de saltar, cantar até tocar ferrinhos. Foram 50 minutos em que os alicerces do prog-rock foram abalroados e em que o rock FM ganhou uma nova definição. Foram 50 minutos de um sonho molhado que culminou com Diffidentia, tema resgatado aBE, o trabalho mor da banda. O final trouxe aquilo que já se adivinhava: rendição de parte a parte, com direito a vénia e a promessa de um regresso.

Nesta altura instaurava-se a estranha e até aí ignorada sensação de que a noite estava feita e ganha. E desenhava-se o pesadelo: será que os Opeth vão conseguir igualar a actuação dos Pain of Salvation? Muito friamente, deixem-me dizer desde já que ficaram pelo menos iguais – e talvez só porque Mikael Akerfeldt e companhia tiveram mais tempo para esgrimir argumentos.

A noite estava ganha à partida para os Opeth e isso ficou claro na forma eufórica como o público reagiu ao tema de Popol Vuh que antecede a entrada da banda em palco. Com calma, classe e uma confiança que há cinco anos atrás seria estranha em Akerfeldt, osOpeth atiram-se de cabeça a Devil’s Orchard. O público, sedento de mostrar que tinha feito o trabalho de casa, acompanha a alto e bom som as palavras de Mikael e até a bateria (altíssima) deAxenrot. Não satisfeitos, público e banda uniram-se novamente para apresentar mutuamente I Feel The Dark, um tema que cristaliza simultaneamente a atmosfera sombria de Opeth e o pior que as temáticas líricas dos anos 80 tinham para oferecer.

Assim se antecedeu, sem falhas e de uma vez só, a introdução para a componente extra de um concerto de Opeth: o espectáculo de humor auto-depreciativo de Akerfeldt. “Sabiam que no próximo disco todas as músicas vão ter o nome de bandas? Uma delas vai-se chamar Saxon e outra Roxette. A editora quer que esse seja o single”. De uma vez só, estava conquistado o público, torneados os pedidos insistentes de temas como Blackwater Park ou Deliverancee sem mexer com a mestria execucional de Face of Melinda (com pozinhos de jazz) ou Porcelain Heart.

Mas se a alguma parte do público faltava peso, à outra, a que sabia ao que vinha, faltava um pouco de sal. Curiosamente, foram as guitarras acústicas a trazer para a mesa os condimentos que faltavam. A uma improvável Throat of Winter tingida com cores latinas, seguiram-se os dois pontos altos da noite: Creedence eClosure, ambas tocadas em banho de ácidos e com o palco pintado de um colorido psicadélico que fica especialmente bem aos novos Opeth. Um momento que merecia ter durado mais; afinal, é graças a ele que recordamos e felicitamos a capacidade que a banda e as suas músicas têm de se metamorfosearem e até evoluírem (vide Throat of Winter).

Até ao final foi possível comprovar que Slither é realmente uma malha feita para abanar o capacete e que os Opeth podiam realmente gravar um álbum inteiro chamado Saxon e que o doom pode ser uma boa alternativa ao death metal. O peso gargantuano que se fez sentir no final de A Fair Judgemente e Hex Omega foi igualmente catártico e arrebatador; de tal forma que o concerto deveria ter ficado por ali. Mas Mikael Akerfeldt tinha ainda preparado um doloroso número de stand-up que quase fez com que folklore soasse deslocada do restante concerto.

No final, apenas uma coisa é certa: os domingos vão ser (mais) difíceis de digerir. E a culpa é dos suecos.