Quando Mikael Akerfeldt disse em entrevista que Heritage seria o primeiro álbum de Opeth sans death-metal, blastbeats, distorções ou qualquer tipo de growls (a palavra grunhido faz-me sentir desconfortável, lamento), meio mundo foi assaltado pela palavra “heresia”.

O outro meio mundo tremeu e temeu que viesse por aí um Illud Divinum Insanus com proveniência sueca. Ponto comum a tanto receio e à polémica que tal anúncio gerou na sempre famigerada e agitada comunidade cibernáutica foi a descoberta de uma ironia (forçada) que revestia Heritage (legado, em tradução livre), uma vez que a banda estava pronta a renegar a raiz pela qual será sobejamente conhecida pelo mundo fora: o death-metal.

O que grande parte das pessoas se esqueceu ao ler as entrevistas pré-Heritage e ao ouvir The Devil’s Orchard, o primeiro tema deHeritage tornado público, é que os Opeth (e principalmente Akerfeldt) nunca esconderam que o rock progressivo é o outro género pelo qual a banda nutre adoração e que tanto em Orchid, como em Blackwater Park ou Ghost Reveries sempre deu de si entremeado no death-metal. Não admira portanto que Heritage – dono de um dos artworks mais chamativos e brilhantes deste ano – seja parte homenagem aos anos 70, parte vontade de mudar o rumo da banda. E para tal, Mikael Akerfeldt não se escusou a nada. É vê-lo desdobrar-se em falsetos; é ouvir as harmonias vocais que lembram o glorioso cock-rock de outros tempos; é ler as letras mais cheesy de que há memória desde os Cinderella; é verNepenthe roubar descaradamente um solo aos King Crimson deAdrian Belew (mais precisamente em Red); é abrir a boca em espanto com o hard-rock à la Rainbow de Slither; é, enfim, ouvir Folklore, a belíssima faixa resumo de todo o disco.

Ao contrário do que seria de esperar, a música de Heritage está longe de soar a um pastiche ou a uma colagem interminável. Na verdade, têm identidade e cor muito própria e não perdem a atmosfera densa que estamos habituados a encontrar nos OpethHaxprocess é um óptimo exemplo disso mesmo. Algo que se deve ao bom trabalho de produção e gravação mas, acima de tudo, à exímia execução instrumental. É verdade que a voz de Akerfeldt nunca soou também, mas aquela banda também nunca expirou tanta classe.