Foi uma Zé dos Bois praticamente cheia que recebeu o regresso a Lisboa do nova-iorquino Daniel Lopatin, ou Oneohtrix Point Never, um ano e meio depois da sua última visita.

E que regresso, diga-se… Embalado pelo sucesso de Replica, o seu último disco e um dos melhores que ouvimos este ano, foi umDaniel Lopatin bem disposto,o que subiu ao palco. Alegre, sim, mas com ar algo tímido, como se não soubesse muito bem o que fazer, escondido por detrás da aba do seu boné da NBA ( não me peçam para deslindar de que equipa era, não percebo um boi de basket ). Tímido mas ainda fez amizade com uma fã, que lhe soltou uns devil horns assim que o músico-alquimista subiu ao palco – ele retribuiu os cornos e ofereceu-lhe parte da laranja que estava a comer. Aproximou-se do pc, enfeitado com um smiley face retirado do filme Evolution, um épico-chunga de ficção cientifica ; estranhamente, os teclados, companheiros habituais de Lopatin, não lá estavam entre a restante maquinaria… O concerto começou da forma como Replica acaba, com a enorme Explain, e a viagem só acabou cerca de uma hora depois. Atrás do músico, eram projectados vários vídeos em simultâneo. Vídeos diversos e até opostos, que mostravam, por exemplo, animais na natureza, um homem a montar e desmontar um telemóvel, câmaras a viajar sem peso nem forma por cidades indistintas.

 Muitas repetições, muitas acelerações e abrandamentos, tanto no som como no vídeo, como se durante aquela hora tudo o que se visse e sentisse naquela sala do Bairro Alto pertencesse a Lopatine às suas praticas, que parecem livres mas estão muito bem controladas. Deu tempo ainda para a melancólica faixa título deReplica e para mais umas deambulações por esse álbum, entre drones e improvisos que se sentiram em todo o Bairro mas só se viram ali na ZDB – até porque as janelas do Aquário estavam tapadas com cortinas grossas, quem quisesse espreitar nem podia. Depois de 40 minutos de concerto, as luzes apagam-se e o músico desce a tampa do portátil. Começam os aplausos, justificados, que pareciam não querer acabar, mas a coisa não se ficava por ali. Faltavam mais 20 minutos de Lopatin e da sua maquinaria, ora estridente e agressiva, ora grave e quase dançável.

Por falar em graves, houve momentos em que o Aquário era um autentico mar de camadas e camadas de drones, glitch e distorção, e toda a rua da Barroca deve ter tremido, fruto do som, mais que alto, como se exige num concerto deste tipo de electrónica.

A abrir, David Maranha, Filipe Felizardo e Pedro Sousa, num orgão, guitarra e saxofone tenor, respectivamente. Música experimental, sim, mas num registo completamente diferente de Oneohtrix Point Never, mais assente no improviso. A julgar pela sala, que ainda não estava muito composta nesta altura, houve que gostasse e houve quem passasse os cerca de 60 minutos que durou o concerto num estado de impaciência. Viram-se olhos em busca do pulso e dos ponteiros do relógio, ouviram-se mãos a remexer os bolsos, em busca do relógio digital do telemóvel.