Há mais de uma década na estrada, os Oneida são uma banda bem oleada, com o ritmo que poucas máquinas aguentariam. Dadas as condições, até é estranho que o cinema Passos Manuel estivesse totalmente lotado, apesar de pouco ter faltado para isso, no último domingo que capitalizou a passagem de dois concertos dos norte-americanos por Portugal.

Aliás, não haveria melhor maneira de ficar boas memórias de um país. Isto como quem diz que o a actuação dos Oneida foi uma das belas situações em que ninguém saiu a perder: tanto o público foi servido com uma actuação divinal, como os próprios Oneidativeram direito a uma performance exímia de um público completamente absorto na sua música e, através dos seus sarcasmos, ainda conseguiram salientar a grande acústica da sala. Resta saber quem é que saiu mais satisfeito do concerto de mais de uma hora.

Essa será, porventura, uma daquelas questões que ninguém vai conseguir resolver, um pouco como acontece com a origem da sonoridade da banda que veio apresentar o mais recente Absolute II ao Out.Fest e ao Passos Manuel. Fazendo historiografia profunda, quase numa espécie de variante da paleontologia, não será difícil encontrar traços do código genético de dinossauros como Peter Hammill e dos seus Van der Graaf Generator no ADN dos Oneida, essencialmente nas teclas e na voz de Bobby Matador. Contudo, a mesma só é perceptível se admitirmos que estes Vand der Graaf têm uma tendência muito maior para o ritmo do que para a melodia teatral, mas não deixam de parte uma forma de estar em palco estranhamente eléctrica e, por isso mesmo, contangiante.

O ritmo foi, claramente, a maior arma de um trio de músicos que só tocava “música escrita profissionalmente”, algo que não falhou desde que os primeiros ambientes começaram a esboçar-se no teclado e na guitarra ao sabor do pedal de volume. Sim, além destes dois havia apenas a bateria e isso não prejudicou em nada a secção rítmica interminável da banda, que culminou a sua actuação com uma sessão de dança em potência, feita com palm-mutes e notas bem graves nas teclas, tudo para acompanhar o excêntrico Kid Millions, o baterista dos Oneida. Eram, de resto, Millions e Matador que seguravam a música, permitindo aShowtime, o guitarrista, brilhar como o seu nome pedia, com solo e muita areia espacial, cravada nos efeitos das suas cordas.

Com tudo isto, era impossível os Oneida não voltarem ao palco para um encore. Uma vez mais, fariam música experimental como poucos, a explorar todas as suas facetas, desde as melodias minimais às harmonias decididas na hora (“consegues tocar em si?”, perguntava Bobby Matador a Showtime). No fim, deixámo-los ir – nós exaustados da injecção de elementos sublimes e subliminares; os Oneida já sem fôlego por causa da sua postura irrequieta. Há poucas noites como a de domingo.