Desde que o Chris Hakius decidiu colocar as suas barbas de molho, ou seja, desde que optou por abandonar o drumkit de OmSleep e Shrinebuilder, uma inevitabilidade começou a desenhar-se no horizonte de Al Cisneros. Desfeito o duo que criouDopesmoker – sim, o Matt Pike também por lá andava, mas a malha de 73 minutos é inequivocamente uma construção de bateria e baixo e uma antecâmara daquilo que viria a ser Om -, seria impossível não alterar o fio condutor deste projecto.

A escolha de Emil Amos, em 2009, para assumir a posição deixada vaga por Hakius não foi inocente. Para além de ser plenamente capaz de manter o livro aberto para que Cisnerosdesenlace todo o seu groove, Emil está habituado a ir mais além e a percorrer distintos caminhos – numa palavra: Grails. Este foi o primeiro passo para adaptar os Om à mudança que se avizinhava. O segundo? A adição de Rob ‘Lichens’ Lowe.

E se em God Is Good, o primeiro álbum com este lineup, ainda perguntávamos se os Om se tinham tornado um trio, três anos depois já não subsistem dúvidas. Advaitic Songs traz-nos, sem margem para incertezas, uns Om em modo triunvirato e uns Om, pela primeira vez desde a sua formação, indubitavelmente capazes de despedaçar limites impostos por baixo e bateria. A lógica acaba por imperar: tendo este projecto uma clara faceta espiritual, onde proliferam as mais diversas tradições budistas, hindus, judaico-cristãs e islâmicas, escutar a tambura de Rob Lowe ou o cântico ritualista que precede a faixa Sinai acaba por fazer total sentido.

Assim, nunca os Om se situaram tanto no epicentro do Médio Oriente como em 2012. E, provavelmente, nunca um álbum de Omsoou tão meditativo e sereno como Advaitic Songs. Não espanta, então, que haja já quem afirme que este projecto não merece o sufixo ‘metal’ – resta saber se alguma vez nesse espectro se situaram. A força gravitacional gerada por Cisneros-Hakius não mais existe e o próprio baixo de Al parece ter perdido impacto: não, não perdeu groove, nem qualidade, mas a produção deste disco parece ter diminuído a spotlight que as linhas de Cisnerossempre patentearam.

Por outro lado, nunca houve tanta desmultiplicação e versatilidade na abordagem sonora deste grupo e, para aqueles que sempre foram adeptos do lado mais etéreo, “mântrico” e contemplativo dosOm, então Advaitic Songs é uma singular pérola desértica, situada no mesmo deserto onde outrora passou a caravana deDopesmoker. Ouçamos a tabla, ouçamos o violino e o violoncelo alinhados com as constelações arábicas e escutemos Cisneros-imã. E digamos adeus ao mundo ocidental, enquanto a flauta presente em Haqq al-Yaqin nos vai indicando o caminho até Jerusalém.