Domenic Palermo vagueou pelo hardcore do virar de milénio. Na costa leste, os American Nightmare inoculavam frenéticas melodias e depressivas letras, trazendo um vigor capaz de encher qualquer sala, de Boston a San Francisco. Em Philadelphia, por essa vaga influenciado, Nicky criou os Horror Show e neles despejou a sua poética fúria de 2000 a 2003, de embalo oferecido pela Deathwish Inc.. O percurso poderia ter sido mais extenso, não fosse um violento capítulo na biografia do vocalista: o esfaqueamento de um homem valeu-lhe dois anos de cárcere. Findado, não mais os Horror Show voltariam a estúdio e o hardcore, salvo parcos concertos, deixou de espertar Domenic. A composição só lhe voltaria por mão dos NOTHING, em 2010, canal de um incorpóreo shoegaze. Após dois EP, a banda caminha para o píncaro: “Guilty Of Everything”, o primeiro longa-duração, é editado a 4 de Março pela conceituada Relapse.

Pessoalmente, o “Guilty Of Everything” é dos discos pelos quais mais aguardava. Fiquei colado nos NOTHING desde o EP “Downward Years To Come”. O que mudou na banda desde esse lançamento, em 2012?

Obrigado. Pouco mudou entre ambos os registos. O Brandon [Setta; guitarrista principal] e eu mudámos de baterista e baixista umas quantas vezes, mas finalmente resolvemos essa questão, ao que parece. Quanto à música, nunca temos um plano sobre como ela irá soar. Escrevemos, compomos coisas e elas soam naturalmente como tu as escutas.

NOTHING é vista normalmente como uma banda tua.

É um erro comum. A verdade é que, desde o EP “Suns And Lovers”, todo o material nasce de um esforço conjunto com o Brandon. Escrevo sempre com ele.

Quando olho para a capa do “Guilty Of Everything”, apenas uma palavra me surge: rendição. Rendição perante o mundo e um assumir da culpa por tudo o que de errado acontece.

Essa tua assumpção está bastante certa. O álbum é um meio, uma forma de confissão para mim, por ser um ser humano defeituoso e por me sentir culpado pelo meu destino. Defeituoso.

É curioso o contraste com Horror Show. Que te levou a criar música como esta? Consegues libertar a raiva de igual forma?

Não estou tão frustrado como antes. A música tem sido sempre o único meio positivo para abafar o ruído da minha vida. Agora, ela é diferente, mas espero que ainda carregue a emoção que me leva a criá-la.

Embora ela soe pacífica, não deixa de ter um lado depressivo. É verdade que o “Downward Years To Come” baseou-se em escritores que cometeram suicídio?

Sim. É difícil demonstrar, e fazer com que tenha sentido, a ideia de que aqueles com que nós mais nos identificamos são aqueles que escolheram acabar com a sua vida. Portanto, resta-me prestar-lhes justiça e homenagem através da música, pois têm sido eles os responsáveis por eu não acabar da mesma forma, até agora.

O clip da “The Rites Of Love And Death” começa com uma citação do Emil Cioran. A ideia central de uma das suas obras, a “On The Heights Of Despair”, é que nos podemos sentir livres com a certeza de que somos apenas um coincidente amontoado de células, sangue e ossos. Achá-la libertadora?

Acho-a depressiva. Somos uma protuberância de matéria que se torna demasiado consciente de si mesma, colocando-se no centro do universo, em fez de dele fazer apenas parte. Somos apenas programados para consumir, consumir e reproduzir, reproduzir. Somos um cancro.

O “Downward Years To Come” também parece lidar com a passagem rápida do tempo. É das coisas mais difíceis para ti?

Acordar e sair da cama todos os dias será sempre mais difícil do que não acordar sequer.

Pegando na frase final desse EP, achas que a música de Nothing vive do “amor pela escuridão e pelo medo”?

Não tenho a certeza como acabámos aqui, nestes locais por onde andamos. É por onde tenho estado e aprendi a ver beleza na sua pureza.

Muitos ficaram surpreendidos por NOTHING ter entrado na Relapse. O shoegaze não é o cartão de visita deles.

Fomos abordados por várias editras, mas o pessoal na Relapse conhecia o álbum do princípio ao fim. Foi um interesse bastante genuíno e é importante teres gente atrás de ti que percebe a arte que fazes, por aquilo que ela é e representa.

Há planos para uma visita a Europa?

Este ano, de certeza.

Imaginas os Horror Show a voltar para mais uns concertos?

Não, não me vejo a fazer parte dos Horror Show novamente.

Que andas a ler de momento?

Agora, as tuas perguntas. Depois, Bataille.