Chegamos ao Primavera ao final da tarde. O Sol ainda espreita e o Porto contém as tradicionais garras meteorológicas. Estamos no Outono, mas ainda longe do esperado Inverno de 6ª-feira.

Perdemos Os da Cidade, projecto de António Zambujo e Miguel Araújo. Assim, o festival dá-nos musicalmente as boas-vindas com o brasileiro Rodrigo Amarante. Esteve esta semana em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois. Terá sido o local ideal para o som introspectivo e minimal que ouvimos em grande parte do concerto. Guitarra, voz e uns pozinhos de xilofone. Apesar de tudo, não cai mal para um final de tarde melancólico, com temas bem bonitos como “Irene” ou “O Cometa”. Amarante não é monocórdico e a coisa anima com a vertente oriental do sintetizador de “Hourglass” ou com o toque sambado de “Maná”. Um aperitivo para o muito público que ia chegando.

Seguiram-se os Spoon. Não se percebe como continuam a ser mediaticamente tão desvalorizados. Do groove viciante de “Don’t You Evah” até à estrondosa tensão de “The Ghost of You Lingers” (retirados do belíssimo “Ga Ga Ga Ga Ga”, de 2007), não só resultam particularmente bem ao vivo, como têm algo muito próprio. Talvez pela importância dos teclados, entre o swing e um lado mais endiabrado. Seguramente pela presença de Britt Daniel. Uma voz que alterna entre uma rouquidão rockeira e um falsete pleno de alma. Um frontman profundamente carismático, de forma natural, sem precisar de grandes piruetas ou alaridos. Deram um discreto, mas óptimo concerto no SBSR há uns anos. Voltaram a fazê-lo no Primavera.

Algum histerismo e muito público acampado nas primeiras filas do palco… chegou o primeiro culto pop da noite. Falamos de Sky Ferreira, mas vamos carinhosamente trata-la por Maria do Céu. Há um fantasma dos Da Vinci (?!) em palco. E, infelizmente, não estamos só a falar do estilo da intérprete. Pop banal, com um pozinho lamechas, sem grande identidade. Temas muito iguais e que não ficam sequer no ouvido. A Ceuzita é uma rapariga simpática e até viu na plateia uma malta que tinha encontrado no Aeroporto de Madrid. Mas a música que ouvimos não impressiona. Foi um relativo fenómeno hipster em 2013. Estaremos para perceber porquê.

Velhos são os trapos… Caetano Veloso foi a estrela da noite. SeSky Ferreira atraiu um público mais adolescente, vemos uma transversalidade muito maior quando a estrela brasileira sobe ao palco. Abre com o excelente “A Bossa Nova é Foda”. Ou como Caetano quebra convenções desde os áureos anos 60. Visita várias vezes o último “Abraçaço”, desde a comunhão do tema título (com direito a coreografia final), o mais acelerado “Funk Melódico” ou a ironia deliciosa de “Estou Triste”. Pelo caminho, ficam alguns êxitos do passado, como o celebratório “Você Não Entende Nada”, a beleza de “Desde que o Samba é Samba” ou uma surpresa chamada “Baby”, numa versão mais morna do clássico tropicalista dos Mutantes. E até somos capazes de desculpar aquele tema dedicado a um animal (sim, esse mesmo). Apesar dos 71 anos,Caetano vai deambulando pelo palco e interage com o público de forma quase natural. E conta com belíssimos músicos, com destaque para o notável e afunkalhado som extraído da guitarra dePedro Sá. No encore, a música adquire contornos mais cosmopolitas. Envereda pelo inglês em “Nine Out of Ten”, antes do arrepio avassalador da interpretação a capella de “Tomada de Luna Llena” (directamente para a lista dos momentos mais bonitos do festival) e do fecho em coro colectivo com “A Luz de Tieta”. O Primavera conta na plateia com um forte contingente internacional. Há muitos surpreendidos com a dinâmica de Caetano, porque a linguagem musical é universal. Mas há quem diga “This guy sucks”. Pérolas a porcos, dizemos nós. Ou pearls for pigs. Concerto da noite.

O histerismo volta com as Haim. Com temas como “Falling” ou “Forever”, temos uma pop com travos soul agradavelmente dançável. Só que também inócua, imaginamos. Mas eis que, ao terceiro tema, surgem as sombras de uns Black Keys e as meninas surpreendem. E, no feminino, a coisa tem um encanto especial. Há uma improvável atitude rockeira, nomeadamente da baixista, que se mantém ao longo do espectáculo. O final é feito com uma caótica jam session de percussão. Os ritmos não combinam assim tão bem, mas há uma surpreendente vontade de arriscar. Em início de carreira, com apenas um disco editado, as Haim podem ir longe.

Kendrick Lamar foi o alienígena numa noite tendencialmente pop. O rapper foi um dos nomes emergentes dos últimos anos. Por cá, tem notoriamente uma legião importante de fãs. Daí que haja gente a guardar lugar com relativa antecedência. O hip-hop é uma espécie de iscas de fígado do mundo da música. Ou se adora de forma viciante ou tem-se dificuldade em ouvir. Não se trata de nenhum preconceito, mas apenas de uma questão de gosto. No ano passado, em Sines, Akua Naru surpreendeu quem não é fã do género. Pela belíssima banda funk que tinha nas costas e pelo toque mais spoken word. Já Kendrick Lamar é mais para puristas. A banda passa relativamente despercebida e o impacto maior é da base electrónica. Deu uma performance avassaladora e a reacção do público foi entusiástica. Na falta de capacidade em analisar musicalmente, reconheçamos esse aspecto.

Já não vimos os Jagwar Ma, que abriram a porta à chuva. No ano passado, em Paredes de Coura, deixaram uma impressão muito verdinha. Parecia que estavam a dar o primeiro concerto, perdidos em palco e faltando notoriamente percussão ou outra base orgânica que fizesse jus à dinâmica psicadélica de “Howlin’”. Aqui, tiveram parcialmente a companhia da baterista das Warpaint. E um jogo de luzes que ajuda a compor melhor o cenário (no ano passado o concerto foi ao final da tarde). Terá sido bem melhor? As opiniões que ouvimos dividem-se.