À mercê de um calor abrasador, os You Can’t Win Charlie Brown enfrentam o sol e, descontraídos, sobem ao palco para dar início a mais um espectáculo. Nas teclas, reconhecemos-lhes a sonoridade de Nine Inch Nails fase “With Teeth” e é nela que os afáveis lisboetas vão estabelecendo empatia com uma ainda ténue plateia. Ela, que em “Be My World”, do recente “Diffraction/Refraction”, é conduzida pelo tear electrónico de quando os Radiohead se esqueceram das guitarras em casa, acompanhando fielmente o ritmo. Uma portuguesa aposta ganha; e a melhor abertura do palco principal de todo o evento.

A mansidão de Cass McCombs detém-nos. Refugiado nos óculos escuros, parciais dissimuladores do seu esgar, o seu folk monocórdico vibra naquele fio condutor que os The Velvet Underground instalaram, bocadinho a bocadinho, no córtex rock. Indiferente ao que circunda – e o vaivém de gente, naquele palco secundário, por segundo algum parou – Cass troteia numa planície sua, remota e anti-citadina. Observá-lo no Alive foi testemunhar, quiçá, o mais belo exercício de introspecção de todo o fim-de-semana. Lá estava ele. Consigo, a magnética “Joe Murder” num crescendo que o levou ao grito.

O entardecer é sem dúvida o cenário ideal para The War on Drugs actuar no palco Heineken. Fortemente influenciado pelas referências do blues e da música folk, a primeira coisa que salta à vista de todos é o timbre do nosso querido Bob Dylan no corpo de Adam Granduciel. A banda americana, inspirada em Bruce Springsteen para “Lost in a Dream, canta “Under Pressure”, “In Reverse” e “Red Eyes” num tom melódico-romântico construindo uma atmosfera harmoniosa ao seu redor. Apesar de o avião da Red Bull ter desviado por momentos o foco principal, as pessoas sentadas no chão de pernas cruzadas, os óculos Ray-Ban, tal e qual como os do Dylan, no rosto do Adam e a ambiência alegre vivenciada na tenda traz-nos à memória o regresso aos 80s.

Na reportagem dedicada ao primeiro dia, afirmámos que os Arctic Monkeys não “se deixaram envenenar pela água choca dos The Killers, essa banda-veneno que anda a minar o cartaz do Alive com os seus copycats ano após ano.” Nas tais aborrecidas réplicas, talvez os Bastille concentrem no seu engendro toda a babaquice que o Brandon Flowers tem oferecido ao planeta. Com menos alma. Com aquela plasticidade dos telefilmes. E com a mesma devoção pelos sintetizadores afinados, claro, pelo som ambiente de um qualquer salão de jogos virtuais construído nos anos oitenta. Se fechássemos os olhos, como “Pompeii” sugere, adormeceríamos. Fizemos melhor e fomos ter com os Unknown Mortal Orchestra.

Enhorabuena tomámos essa opção. Podem nem ter uma “Feels Like We Only Go Backwards”, mas, e recordando o que foram os Tame Impala na edição 2013, brincam sob os ostentosos holofotes psych com um resplendor que os australianos não mostraram. De guitarra quase agrafada ao pescoço, o neozelandês Ruban Nielson vai espicaçando o riff de “Ffunny Ffriends” numa vivacidade que leva a plateia [mais numerosa do que inicialmente esperaríamos] a cantarolá-lo sob a anémica percussão sacada do lo-fi Ty Segallesque. Deu-nos vontade de pedir mais quando “Boy Witch” de Lisboa se despediu numa jam veemente, evidência clara de que os Unknown Mortal Orchestra não são em palco um grupeto de pífios rapazes. Não se metam com eles.

Encontrámos os Phantogram no Clubbing. E se em disco não arrumam debaixo do tapete o seu fraquinho pelo downtempo, em Algés por completo soltaram a franga upbeat que “Voices”, o seu primeiro LP em cinco anos, anteviu com “Fall In Love”. Trajada a branco, Sarah Barthel foi dama de espadas pop entre um ofuscante jogo de luzes apto a emular o Razzmatazz de sábado à noite. Os ganchos orelhudos, tão descartáveis quanto atraentes, engalfinharam-se em camadas de guitarra e teclados, num exercício que agradou a quem faz daquele palco a sua assoalhada favorita do festival. Ao lado, e em simultâneo, outro “Clarão”. Bisbilhotámos os PAUS e, caramba, foi bem melhor do que em 2012. O ambiente nocturno, o aconchego do palco secundário e o firme novo álbum resultaram num estardalhaço digno de quem tratou o Alive como concerto em nome próprio. Ah!, “Pelo Pulso” continua uma malhona.

Regressamos novamente ao Coreto para assistir a mais um projecto português, desta vez a cargo dos D’Alva. Embebidos pela música electro-pop, Alex apresenta o verdadeiro outfit de East London quando vagueamos pelas ruas de Shoreditch. A interacção genuína e a presença do falsete bastante afinado foram as ferramentas fulcrais para o público sentir o flow. Embora houvesse algumas falhas técnicas podemos dizer que foi uma boa experiência synth-pop-sensual.

Antes de saltar para o palco principal e ver The Libertines a fechar o festival, fomos dar uma espreitadela ao palco Heineken. Tal não é o espanto quando nos deparamos com uma plateia repleta de entusiastas para assistir a Daughter. As patentes raízes de The xx reflectidas na banda inglesa e a alternância na escolha das luzes entre o verde, roxo e azul, torna o ambiente mais fechado e melancólico. Elena Tonra, já deveras emocionada na terceira música com tamanha recepção, perpetua a sensação com “Touch” e “Landfill” e com uma voz fina e delicada, que vai aguçando no decorrer dos minutos, ao cantar “Human” vem-nos à memória a imagem de Florence Welch. Garantimos que o sentimento exacerbado provocado por Daughter foi do melhor que tivemos neste dia.

Adorados por metade dos ingleses, e sendo eles uma grande percentagem dos fervorosos fãs do Alive, quando avistam The Libertines o alvoroço está instalado. Exibindo como pano de fundo a capa do seu primeiro álbum “Up The Bracket”, nas primeiras cinco malhas revivemos a fulgência e vivacidade que tão bem os identifica. Pete Doherty ostenta como acessório principal na sua indumentária um chapéu de polícia e, visivelmente com menos genica e irreverência do que há dez anos, o ritmo inicial começa a decair. Mais tarde, o puro rock britânico volta à tona com “Last Post On the Bugle”, criando uma boa dinâmica impossível de ficarmos impávidos e serenos sem bater o pé. Houve ainda espaço para um excerto de Otis Redding “(Sittin’ On) The Dock Of The Bay”, mas a actuação fica marcada por um conjunto de pontos altos e baixos, arriscando-se dizer que foi um concerto para inglês ver.

Chet Faker caminha pelos graves do seu post-dubstep com o desembaraço de quem sabe que é hábil. A ele, e à sua incensurável barba, só temos vontade de lhe perguntar se a embaixada britânica ainda não lhe concedeu a nacionalidade – não lhe ficaria mal, dado que é dos subcanais londrinos que Fakeresgravata e absorve as tensas bass lines que preenchem um som digitalmente urbano, vagabundo entre o trip-hop de outra década e o RnB pré-modernices. O palco Heineken, a transbordar, recebe-o e berra a novinha “To Me” com a mesma certeza de quem conhece do avesso “Love And Feeling” ou “Drop The Game”. A coisa foi, e não há melhor termo, intensa. No fim, “Talk Is Cheap” em trajes menores funcionou como o cigarrinho pós-volúpia.

Aos resistentes sobrou Nicolas Jaar. Dono da chave que trancou o festival, o norte-americano de chileno ADN meteu-nos no bolso, agitou-nos como se fôssemos uma latinha de Red Bull e deu-nos a deep house que lhe admiramos desde “Space Is Only”. Não aguardávamos por bacocas efusividades e não as tivemos; apenas um maciço live set que deu ao Alive um notável encore.

Para ver mais fotografias deste segundo dia do NOS Alive 2014segue até à página do PA’ no Flickr.