As ventosas golfadas que o Tejo foi atirando recordaram ao Alive o porquê de o casaco ser, quando o sol se encosta, o melhor amigo. Ele e o álcool – Matthew Heafy, de camisinha aberta e peito ao léu, burlou o frio com uma garrafa de tinto, enquanto os seus The 1975 lá iam trauteando a rock o guião de “Sixteen Candles” (ou qualquer outra teenager flick dos anos oitenta). Resgatou-se um saxofone que “Careless Whisper” jamais deixará morrer, numa dançante volúpia entre “Chocolate” e “Sex” – combinação (menos) afrodisíaca e (mais) azeiteira; suficiente quanto baste para animar um Heineken à espera de algo mais que o marasmo de Tiago Bettencourt, preso à sua rouca “Carta” de costumes tedioso-intimistas.

Hendrik Weber, pálido alemão habituado à neve de Hamburgo, transmutou-se geneticamente sob o (ainda) quente entardecer lisboeta. A minimal electrónica de Pantha du Prince, o mais nobre convidado de Jamie xx nesta quinta-feira de Clubbing refeito a curadoria, mordeu-nos a orelha num basqueiro puntz puntz nada cortês para quem, sem grande fé, procurava o bálsamo de “Black Noise”. Paciência.

Fugimos dos Imagine Dragons, que, tal como os The Lumineers, merecem destaque no palco principal apenas por recordarem à grande parte dos presentes como são as suas manhãs no trânsito do IC19 com a rádio sintonizada numa popular onda média. Acabamos no Coreto – de design significativamente renovado – ao som das guitarradas de D3O. Com apenas vinte minutos para estarem em palco, Toni Fortuna arranca com “Too Late”, primeirosingle do novo álbum “Love Blinder”, funcionando como um bomtrigger para o rock começar a fervilhar pelo público. Porém, a presença cativante das guitarras e bateria a que deles estamos habituados não se fez sentir neste Coreto um pouco afastado dos pontos de passagem, faltando-lhes alguma pujança e fulgor, duas das características primordiais nos concertos do trio. Em sua defesa, é de salientar que enquadrados numa envolvência diferente, começando por um horário tardio e um ambiente mais abrasivo, poderiam ter dar o verdadeiro feeling cru a um palco que se intitula Raw.

Não dá para discorrermos sobre Elbow sem que as pints se agarrem à memória num loiro aperto de cevada. Guy Carvey é aquele bonacheirão inglês sentado ao balcão do pub, pronto a aliviar-nos o quotidiano com um pires de amendoins e uma descomplicada teoria sobre o que correu mal na sucessão de Alex Ferguson. Esse imaginário britânico, onde os carros andam às avessas mas os desgostos de amor são iguais aos de qualquer outro recanto, traduzem-se em melodias simples que o Alive entoou como se fossem suas por decreto – se não houvesse um horário a cumprir, o palco secundário teria ficado ali, de braços ao alto, a cantar os versos de “One Day Like This” até que a régiedesligasse a corrente.

Com Interpol veio a noite cerrada. Rapidamente nos apercebemos que muitas das pessoas que se encontravam junto ao palco principal ansiavam pela 00:15 (hora que os Arctic Monkeyssubiriam ao palco), enquanto outros dispersavam para encher o estômago. Não obstante, a banda recebe os resistentes ao frio e ao vento com “Say Hello To The Angels”. Ao longo de aproximadamente uma hora, os nova-iorquinos andaram atrás no tempo e percorraram as malhas mais antigas dos primeiros álbuns “Turn on the Bright Lights” e “Antics”.

No baú das memórias ficaram retidas as músicas do terceiro, havendo apenas espaço para uma pequena paragem em “Lights” para nos fazer recordar que há um homónimo lá pelo meio da sua discografia. Os responsáveis pela banda sonora de “Six Feet Under” revelaram alguns brindes do próximo “El Pintor” (anagrama de Interpol), incluindo o single de estreia “All the Rage Back Home”. Uma analepse em formato concerto sublinhada não apenas por uma harmonia constante e enternecedora – bela “Leif Erikson” – mas também pela ausência de pontos altos e pela indiferença lisboeta, deixando no final uma sensação de banho-maria.

Nem um tufão sacudiria o impecável penteado 50s de Alex Turner. Denso, e tão altivo quanto o riff carnal de “Do I Wanna Know?”, o corte resgatado de Elvis pré-obesidade faz hoje suspirar não só as meninas que em 2007 sonhavam destronar Johanna Bennett. Também as silhuetas femininas da linha, trazidas pelo cordel de um “AM” atolado de ganchos e innuendos sexuais, obrigaram a que este 10 de Julho se esgotasse para cantarolar “R U Mine?” – ohino nacional número dois do Alive’14.

Os Arctic Monkeys, à semelhança do que em 2013 pelo Meco conferimos, dão-se bem com as exigências da popularidade. O ex-franjinhas Alex desprende-se da guitarra que há anos lhe era indivisível e veste a camurça de um lobo crooner logo em “Arabella”. De pulmões cheios e peito feito ante uma plateia conquistada ainda os roadies ajeitavam a bateria, o antigo adolescente florescente de Sheffield só regressa às seis cordas para desatar os acordes de “War Pigs” de Black Sabbath, num momento tongue-in-cheek direitinho aos corações ofendidos de quem afirma que os Monkeys assaltaram Tony Iommi (e quem nunca o fez?).

O concerto dos britânicos lá prossegue naquele distanciamento típico de quem se agigantou e não mais têm paciência para os Paradise Garage desta vida. As revisitas aos tempos idos fazem-se numa obrigatoriedade quase contratual; eles sabem que há quem queira acender o very-light em “Brianstorm”. Quiçá, os própriosArctic Monkeys ainda precisam de trautear “Dancing Shoes” para terem a certeza de que são quatro dee dahs e não uns ricaços de Los Angeles – o indicativo de Sheffield estampado no timbalão deMatt Helders será um memorando à “Memento” de Christopher Nolan? E o quão irónico seria hoje escutar Turner a dizer os versos de “Fake Tales Of San Francisco”.

“505”, o obus sentimentalão mais arrebatador que o Reino Unido criou desde “Live Forever” dos Oasis, dar-nos-á sempre aquele nó na garganta, por muito que a melosa dissonância de Miles Kaneseja em Algés ignorada entre a booty call de “Why Do You Only Call Me When You’re High?” e o slow lascivo demasiado Coney Island de “I Wanna Be Yours”. A culpa é nossa, o saudosismo é um vício complicado. Sobra-nos, quando o recinto se metamorfoseia num vórtice de copos vazios e nós puxamos do capuz (que o frio aperta), a sensação de que os Arctic Monkeys ainda fazem boas malhas rock. Não são hoje, ao contrário de compatriotas seus, uma bacoca caricatura do passado. Nem tampouco se deixaram envenenar pela água choca dos The Killers, essa banda-veneno que anda a minar o cartaz do Alive com os seus copycats ano após ano.

Após Kelis ter feito de Katy B (em 2012, a londrina ficou entregue aos mosquitos com uma plateia por completo centrada nos The Cure), competindo sem hipótese frente aos Artic Monkeys, o palco Heineken lá voltou à enchente com The Parov Stelar Band. Consumada a ramboia feita de braçadas funky, Marcus Fürederolhou para o festim montado à sua frente com o esgar feliz de quem meteu a plateia no bolso. Chromeo quem?

Para ver mais fotografias deste primeiro dia do NOS Alive segue até à página do PA’ no Flickr.