Diz-se que uma alcateia é composta por um conjunto de dois ou mais lobos. No entanto, se se observar o poder de ataque que uma alcateia composta por apenas dois animais consegue desferir, percebe-se que esse alcance será mais diminuto, do que se o mesmo for obtido por um grupo mais numeroso.

Norberto e João, os dois lobos que se apresentaram no Teatro Maria de Matos, mostraram que, afinal, com apenas dois elementos, a dimensão e a ampla perspectiva musical podem ser, desta forma, atingidas. Como tal, foi com esse objectivo que atacaram os muitos presentes através dos sons das cordas e da bateria. Baseado em duas fases que se intercalaram – ora com a bateria mais premente, ora com a guitarra eléctrica ou acústica com maior capacidade de propagação -, o concerto acabou por deambular através destes dois prismas.

Com a eléctrica em risque e com o pé constantemente nos pedais, Norberto Lobo parecia desafiar o seu amigo João para que este lhe respondesse de igual forma. Desse factor, adveio que se ouvisse uma constante variação de dinâmicas – por excelência, experimentais e ambientais.

Contudo, nem só da sua guitarra eléctrica se muniu o autor de Fala Mansa, não sendo esquecida, a guitarra acústica. Talvez, por deformação pessoal, foram estes os momentos mais realizáveis, em que a suavidade e a moderação da utilização dos pratos e dos tambores conferiam uma projecção muito agradável no som dos dois instrumentos. Muitos destes acontecimentos eram acompanhados pelos murmúrios de Norberto, que, assim, alcançava algo semelhante a uma bonita tristeza. O sorriso que era visível na face dos dois demonstrava que a ligação que os une se complementa ao vivo através das composições que criaram.

No entanto, os dois Lobos nem sempre estiveram sozinhos em palco, já que contaram, por duas vezes, com a presença de Mariana Ricardo e de Cristina Alfaiate, cantautoras que contribuíram para um dos momentos mais belos da noite, em que os quatro músicos – com os seus instrumentos e sussurros – lembravam o quão étnico pode ser a música. No meu imaginário, fui transposto para uma qualquer rua pitoresca de Lisboa, em que os amigos se juntam para, através da melodia, transmitirem a quem os ouve uma sensação libertária, humana mas, acima de tudo, muito espiritual.

Para o final, estava reservado um minuto de total devaneio instrumental, com Norberto a tocar quase em cima da bateria do outro Lobo. Uma celebração à união e amizade que os liga, mas, essencialmente, uma reflexão musical de elos pessoais. Circundando entre a canção e o improviso, fica a ideia de que a extrapolação para o disco desta experiência será mais uma prova em que ambos serão capazes de superar e passar com distinção.