O palco do Maria Matos estará para sempre ligado à forma antecedente da colaboração entre os dois Lobos. “Mogul de Jade” foi o rebento que por ali viu os primeiros raios de luz. Com esse disco nascido e criado, Norberto Lobo e João Lobo alargaram horizontes e (“Oba Loba” será o título do próximo registo colaborativo) relançaram essa ligação novamente na sala lisboeta com acrescento de formato de sexteto.

Os primeiros momentos traduziram-se no incómodo de manifestamente perceber que a música do anteriormente duo está muito mais expansiva, ligada à dissonância e estranheza inicial de algo baseado no free jazz. Contudo, a multiculturalidade dos elementos do sexteto permitiu que toda a música produzida fosse bastante difícil de catalogar, bem como de encaixar em apenas uma corrente. Bebeu de várias dimensões sonoras e expandiu-se distintamente. Diferenciada é a maneira como chegam sempre os acordes de Norberto e, se o primeiro avanço musical se tornou fonte de desconfiança, essa sensação foi abandonada logo de seguida pela conjugação quase parental como soa a sua guitarra acústica. Beleza instantânea aconchegada pelos instrumentos de sopro que aprimoraram ainda mais o contexto.

Por aquilo que foi apresentado, “Oba Loba” será veículo de liberdade de composição, sem limites, sem temáticas rígidas e puro veículo de estímulos. Como tal, a inclusão do baixo e o abandono da acústica, também representaram essa frequente tentativa de progressão e construção das malhas que podem tanto balançar entre a leveza e a força. Fruto da flexibilidade das estruturas, nenhum instrumento surgiu escondido ou maioritário. Cada umdanificava o som consoante o seu ímpeto e partilhava o seu momento de condução dos temas. Assim, sem surpresa, não só se ouviu a solo o violino de Ananta Roosens, com o seu dramatismo e graciosidade, como também se escutaram em tantas ocasiões, com atenção prioritária, as teclas do piano de Giovanni Di Domenico e a sua bucólica afeição.

A coroação final surgiu com a presença em palco dos saxofonistas   e Rodrigo Amado, acompanhados nos sopros porJordi Grognard, constantemente enamorados vocalmente por Lynn Cassiers. Se Norberto Lobo e João Lobo com a sua estreia discográfica tinham conseguido o louvor, o futuro trabalho prevê uma grandeza ainda mais audível. Como se na edificação de um pagode, “Mogul De Jade” fosse a primeira história e “Oba Loba” conseguisse uma posição superior e uma menor distância para a espiritualidade. Felizes daqueles que o testemunharam.