Começamos o novo ano praticamente da mesma forma como terminámos o anterior: a presenciar a constante mutação que sentimos ser proveniente de Norberto Lobo. Se “Oba Loba” – mesmo sendo um disco colaborativo com João Lobo – pressentia uma cada vez mais abrangente caminhada da sua guitarra, “Fornalha” confirmava que o percurso iniciado em “Mudar de Bina”, prossegue sem receio da transformação e da constante revitalização dos seus acordes. A todos aqueles agentes demagogos que proclamam a incapacidade e resistência humana para enfrentar a mudança, Norberto responderia presente a cada novo registo.

Se a devoção encabeça o principal motivo das horas despendidas na Igreja de St. George, a escolha para o local inicial de promoção ao último longa-duração não poderia ter sido mais acertada. Antecipadamente esgotado o espaço em cada um daqueles genuflexórios, o começo com a faixa título de “Fornalha” clarificou o sentimento de que a progressão é algo constante no seu íntimo, não sendo, contudo, feita com leveza. Da mesma forma que um poeta pode ir abandonando a estética da sua prosa, convocando uma maior concentração e pensamento perante as suas palavras e consequentes mensagens, também agora o som de Norberto exige uma maior evasão. Prova disso, o arco nas cordas e a própria manipulação de todos os sons daí provenientes com uma densidade e construção melódica dificilmente ouvida no seu passado. O formato apaziguador da sua sonoridade permanece intacto e o incremento daqueles suaves uivostornou ainda mais belo o binómio entre o embalo e o áspero, condizente com a sua própria dança na cadeira.

Apesar de mais extensos, os temas continuam igualmente apetecíveis, muito por culpa do carácter ausente do imediatismo e mais assentes num contínuo crescendo de robustez e corpulência, audíveis nas camadas de “Eu Amo”. No entanto, a ternura com que se abraçam muitos dos seus acordes, ganhou uma propensão ainda mais acentuada nos momentos em que pousava a sua face nas curvas da guitarra. É nesse instrumento que reside a mestria e a forma quase incomparável como do seu dedilhar se ouvia na perfeição a pureza de cada nota.

Lugar quente e em que tudo cresce e se transforma, a “Fornalha” de Norberto Lobo, poucos meses após a sua edição, pareceu também já ser meio de retocagem e não de imaculada projecção. Pelo menos foi assim que o sentimos, longe de ser um disco que em palco se mostrou resignado ao estúdio e à escrita anterior. Um forno de ideias, novidades e sem protecção contra outros incrementos. Momentos que pareceram demasiado fugazes, mas altamente particulares.