Depois de, na noite anterior, a ZDB ter recebido a vinda dos norte-americanos High Places, o espaço do Bairro Alto mutou-se e compôs-se a preceito para acolher um dos mais genuínos intérpretes portugueses da guitarra acústica. Com o propósito de apresentar inéditos de um novo álbum a editar no próximo ano, mas também de visitar temas já editados, nomeadamente de Fala Mansa, o seu mais recente longa-duração, Norberto Lobo pisou, mais uma vez, o estado do aquário perante uma plateia bastante alargada.

Norberto Lobo não esteve só no palco, à sua volta juntou-se todo o público, acabando, assim, circundado – por todos os lados – pelos presentes. Uma bela forma de encarar o concerto, semelhante a uma grande família que, em silêncio, se reúne para ouvir tocar um dos seus entes queridos.

O silêncio acaba por ser uma clara demonstração de como a música era recebida por todos. Ouvir o dedilhar de Norberto sem interrupções por conversas e burburinho da audiência é a grande prova de que foi possível acolher e englobar todos nas cordas da sua guitarra e nos sussurros que, por vezes, o virtuoso emitia. Não deixa de ser curioso e intrigante que um país como o nosso, com um tempo tão distinto, soalheiro e propício às boas vivências, seja um cantinho com sentimentos de tanta melancolia e de envolvências tão depressivas.

A música que se faz por cá acaba por transmitir também esse tipo de sensações, coisa que muitas vezes se reflecte no imaginário musical de Norberto Lobo. No entanto, o guitarrista conseguiu na ZDB, ao contrário de muitos outros, passar uma mensagem com um carácter de música popular e feliz, com cadências muitas vezes pouco usuais na interpretação da guitarra. Acabou por ser uma actuação que variava entre essas duas ambiências, ora claramente mais festivas, ora mais gravosas e melancólicas, que só um dos nossos conterrâneos consegue exprimir.

“Tirar” da guitarra estas duas vertentes é pouco usual, que conferiu uma riqueza e componente multifacetada ao concerto. Os presentes puderam encarar uma forma de reproduzir tristeza com uma dose feliz de fatalidade, com um cariz de intimidade e proximidade bastante interessantes. A avaliar pelo concerto queNorberto Lobo “pregou” em todos, é com grande ânsia que se espera o sucessor de Fala Mansa.

Antes do Lobo, foi anunciado que haveria lugar a uma surpresa. Essa mesma surpresa foi a actuação de Filipe Felizardo, que contou, igualmente, com a guitarra como único elemento musical. Acabou por ser curta, mas imediata a actuação. Com aquilo que pareceu um set com alguma dose de improviso, serviu como um bom prenúncio para o que se iria ouvir posteriormente.