Este The Slip é o segundo regresso de Trent Reznor aos discos este ano. Ghosts I-IV foi editado no início do ano e foi o primeiro álbum de Nine Inch Nails a sair pelos próprios meios do mentor do projecto, tudo parte de um verdadeiro golpe à indústria discográfica já que vem sendo preparado há algum tempo e que teve início em Fevereiro de 2007, na altura em que a banda actuava em Portugal.

Como se sabe, foi encontrada uma pen-drive numa casa de banho do Coliseu de Lisboa com uma faixa de Year Zero, My Violent Heart. Começou assim o jogo de realidade alternativa (alternate reality game, ou ARG) de Trent Reznor, em que este desenhava um mundo controlado pelo governo americano através de uma droga – foi a jogada de marketing mais entusiasmante de 2007, e em relação a isso não há qualquer sombra de dúvida; milhares de pessoas procuraram em páginas e páginas da Web por pistas que pudessem indicar onde é que se encontraria a próxima pen-drive ou qual o aparato do próximo álbum dos Nine Inch Nails. E, como o próprio mentor da banda previu num concerto em Barcelona, pela altura em que o álbum saiu já toda a gente tinha as suas músicas e conhecia o conceito por detrás delas.

The Slip foi a continuação deste golpe de ignorar as editoras e dar a música aos fãs: em meados de Maio deste ano Trent Reznordisponibilizou, em jeito de agradecimento, o novo álbum dos Nine Inch Nails (NIN) para download gratuito, com um ficheiro em pdf com todo o artwork incluindo. Em Julho o mais recente álbum do projecto seria editado nos tradicionais formatos físicos.

Este álbum não representou apenas mais um passo no que toca às novas possibilidades da distribuição de música. Seria um erro dizer que nada mudou de Year Zero para The Slip, tendo em conta que existiu um Ghosts entre eles, um álbum completamente instrumental em que o importante eram as texturas e a imagem que Reznor tentava conceptualizar através da música. Se em Year Zero o que sobressaía eram as camadas de instrumentos que se acumulavam – pode-se dizer que foi o levar da produção de With Teeth, um álbum em que cada instrumento podia fazer com cada frase específica uma música diferente, ao extremo – em The Slip a genuinidade da banda Rock assume as rédeas do industrial.

Mas que não se formem ideias erradas: os NIN continuam uma máquina e estão a ficar cada vez mais industriais (o que quer que isso queira dizer, tendo em conta que são um dos grandes pilares do género, para não dizer o grande pilar). Apesar de deixadas para trás as camadas – mas não completamente esquecidas, poisDemon Seed, a última faixa do álbum, ainda dá ares destas graças – e de assumida uma forma mais Rock de estar, em que o que se ouve é o que se toca, The Slip consegue reter o melhor do Industrial e não ser uma simples fórmula repetida – consegue serNine Inch Nails no seu melhor. Músicas com batidas maquinais e repetitivas do princípio ao fim que os restantes instrumentos vão explorando e desconstruindo, criando várias fases nas faixas, dando-lhes os contornos Pop da construção musical, são o principal conteúdo deste novo álbum de Reznor e companhia.

Pode-se dizer que neste último registo se nota um regresso aos primórdios no que toca à produção, que está feita de uma forma muito mais elementar, mas nem por isso menos eficaz. A equipa deReznor desta vez fez tudo com uma excelência fenomenal por muito menos do que nos últimos quatro álbuns dos NIN, atribuindo a cada instrumento a importância de fazer toda a música numa única pista e não de criar uma pista para cada frase. E com tão poucas pistas para trabalhar tudo fica mais simplificado, o que não quer dizer que algo esteja mal feito: pelo contrário, cada música tem uma pequena delícia que nos surpreende e que destrói a estrutura Pop da faixa por completo, dando-lhe contornos megalómanos e demovedores – por exemplo, em Disciplinequando se ouve o piano pela primeira vez ou em 1,000,000 quando a música cessa para dar espaço à voz de Reznor e retomar de imediato. Claro que este regresso não foi feito apenas no que toca a estes pormenores de produção, o líder da banda foi em busca de algumas mentes que já tinham trabalhado com ele há algum tempo, como por exemplo Robin Finck (que o acompanhou durante imenso tempo nos NIN).

Há a assinalar que a forma minimalista que Ghosts I-IV assume teve uma clara influência nesta simplificação de The Slip, que não se encontra só na produção e se estende à composição e ao alinhamento do álbum – tanto há espaço para as faixas mais roqueiras, como para uma ‘balada’ em piano de Reznor (Lights in the Sky) e para as músicas industriais de exploração de texturas (Corona Radiata e The Four of Us are Dying).

Temos de admitir que esta quebra com as editoras, que levou Reznor a produzir muito mais, foi um dos melhores acontecimentos para a música contemporânea, pois os Nine Inch Nails não perdem qualidades e ainda conseguem expandir as fronteiras, que eles mesmos definiram no seu género, de formas impressionantes.The Slip é uma grande lição de música e Trent Reznor um verdadeiro monstro sonoro – eis a moral desta história.