A história começa há cinquenta anos, quando Daniel Bacelar e Joaquim Costa já aí andavam a emular o yé-yé do Gene Vincent e Elvis Presley. A onda de Conjuntos (Académicos, do João Paulo,ou do Ruy Manuel) espalhou-se com o sucesso possível em alturas do Antigo Regime, mas era lixado para se manterem à tona. Os anos 80 são aquilo que se sabe e nos anos 90 o rock parecia pronto a germinar pelo país fora. Mas só ao entrar no milénio, livres do ‘Bug’ que ia estourar com tudo o que era aparelho electrónico, é que o rock apareceu verdadeiramente livre e espalhou-se que nem vírus por todo esse país fora. De repente parecia que “neste país” podíamos ter tanto rock como os Estados Unidos celebravam desde os anos 50. Pelo menos para aqueles que o queriam ver agora e não se preocupavam em espreitar o passado.

É que Portugal é um país (cheio) de rock. De norte a sul do país, são várias as bofetadas, socos e pontapés que atingem em cheio os que ainda teimam dizer “só neste país”. Uma expressão de conotação negativa e até depreciativa que, face ao que “este país” nos tem oferecido, está na altura de expressar satisfação por só “neste país” se fazer tanta coisa boa. Nick Nicotine é uma das provas que “este país” está a mudar (ou já mudou?) e começa a ser cada vez mais um caldeirão fervilhantede boas ideias.

Olhar e ouvir este rapaz oriundo do Barreiro e não pensar em Legendary Tigerman é praticamente impossível: ambos respiram blues rock e ambos são adeptos da solidão musical. Ou como se dizpor aí, são um one-man-show e não deixam mais ninguém tocar nos seus instrumentos. Ora, o rockde Nick Nicotine balança entre o electro blues, o rockabilly e a americana bem desértica. E nós balançamos (ou gingamos) a anca e o pé ao som da boa música deste rapaz.

A dupla de abertura – It Was Me e Move On – dão a toada forte que nos berra ao ouvido “toca amexer e a abanar o corpo”. Mas sem derramar a cerveja, claro. Vamos avançando entre terrenos que Paulo Gonzo já explorou nos já extintos Go Graal Blues Band (sim, o homem de Jardins Proibidos já fez algum do blues mais contagiante do país) até ao ponto alto – falo por mim – do disco: a faixa I Smell Trouble, que veste um negro à la Nick Cave.

Daí até ao fim o problema maior é o disco soar algo genérico. Não vai agradar aos puristas que cresceram a ouvir John Mayal ou Canned Heat, mas poderá agarrar os que acham que o My Father’s Eyes do Eric Clapton é uma pérola perdida do blues mundial. E atenção, isto não é deforma alguma perjúrio: encontrar-se no labirinto da identidade à primeira é caso raro. O disco agarra-nos com rock que enrola e faz-nos lembrar Dax Riggs, modo vagabundo de vagão. Nick Nicotine mostra que o blues está bem-vivo em Portugal e, à primeira semeou bons ventos. Da próxima vez vamos com ele colher tempestades.