É um desafio complicado falar da performance de Nicolas Jaar, segunda-feira passada, no Lux. Depois dos belíssimos 20 minutos assistidos no Super Bock Super Rock (foi um disparate a opção por Beirut, dado o deplorável som do palco principal), em formato banda, com a concretização perfeita de todo o lado mais orgânico da música do jovem chileno-americano, a expectativa era alta para este regresso a Portugal.

Na chegada ao Lux, o deparar de um palco sem quaisquer instrumentos, apenas com maquinaria electrónica, mostrou logo que nada seria como dantes e tornou ingrata a tarefa deste repórter, a léguas de ser um fã de música electrónica. Ainda para mais num dia longo de trabalho e rodeado de algum público desprovido das mais elementares regras de comportamento.

Apesar das contingências, o início foi até positivamente surpreendente. Incluindo o recente Why Didn’t You Save Me, mostrou o lado mais cintilante e dreamy da sonoridade de Nico, com destaque para os belíssimos loops vocais, do próprio ou em samples gravados. A acompanhar, a projecção visual de padrões sujeitos a um desdobramento dinâmico, num interessante complemento da música, feita de camadas sonoras em progressão. Contudo, aquilo que terá sido o ponto alto do concerto de Jaar, foi um mero aquecimento entediante para algum público.

Aquele que se deslocou ao Lux para tirar umas fotografias, falar histericamente para os amigos, engatar umas miúdas ou ouvir o Nicolas Jaar como se fosse Diego Miranda. Dinheiro gasto em vão (ou não?) e um incómodo para quem estava em seu redor. Voltando à música, o problema (ou talvez não, depende sempre do ponto de vista) foi que essa complexidade rapidamente degenerou num som muito mais minimal e pesado, impulsionado pela acústica tradicionalmente abafada do Lux e por um tremendo excesso de graves.

Uma proximidade muito maior com o techno (meteu medo o tema que usa o sample de Feeling Good de Nina Simone), ficando, por exemplo, as influências jazzísticas praticamente dissipadas, aspecto para o qual muito contribuiu a ausência de teclados verdadeiros. Num concerto em que a presença do brilhante Space is Only Noise foi bastante reduzida (4 ou 5 temas), exemplo paradigmático dessa falta de alma foi o fabuloso Too Many Kids Finding Rain in the Dust, com uma intensidade sombria tremenda em disco e fabulosamente recriado ao vivo no SBSR.

Sem saxofone ou guitarra, grande parte da força do tema perdeu-se, passando despercebida num concerto que, vivendo apenas da exploração electrónica, se tornou facilmente monocórdico. Uma hora e meia e dois encores depois, terminou um espectáculo que pôs as pessoas a dançar de forma frenética (algumas delas dançariam qualquer coisa com batida) e que pode ter sido prodigioso para particulares apreciadores de electrónica.

Mas, para quem fez um dos discos mais incríveis de 2011, capaz de criar uma fusão que rompe convenções e de alargar horizontes a um público pouco devoto desse género musical, espera-se mais. Espera-se alguma magia emotiva e ela pouco esteve presente no Lux.

* Crónica Elaborada para a Rádio Universidade de Coimbra