Nick Cave não consegue estar parado e, acima de tudo, mantém tantos anos depois uma vontade de não repetir fórmulas, de inovar, de continuar a desbravar caminhos num percurso em constante mutação. Pela aparência, pouco haverá em comum entre a violência avassaladora de Grinderman, o minimalismo melancólico das maravilhosas bandas-sonoras com Warren Ellis (recentemente, escreveu também o argumento de Lawless) ou o lado mais tranquilo, falsamente tranquilo, deste Push The Sky Away. Mas há, ao mesmo tempo, uma coerência, uma complementaridade, um olhar global que aproxima mais os vários projectos do que os separa.

Este novo trabalho com os Bad Seeds está, pela forma musicalmente mais pausada, mais próximo do maravilhoso tridenteMurder Ballads / Boatman’s Call / No More Shall We Part. Mas, em vez das verdadeiras baladas sombrias, com um piano demolidor, o registo é outro. O mote já tinha sido pelo magnífico tema de apresentação, com uns teclados quase etéreos e uma progressão lenta, arrastada e muito bonita. As teclas voltam numa forma ligeiramente mais ruidosa, no também belíssimo tema título, onde há qualquer coisa próximo da desolação visual de um Mount Eerie.

De resto, são as cordas que lideram o disco. Por um lado, as guitarras que ajudam a manter uma tensão acumulada que nunca se chega efectivamente a libertar, como sucede nos notáveisWater’s Edge ou We Real Cool. Por outro, os violinos e violoncelos são também decisivos, encontrando-se musicalmente num espaço imaginário que se situa algures entre a vertente acústica do trabalho a solo de Thurston Moore e o retrato diabólico e sinistro da América e do Mundo de Homeland de Laurie Anderson.

No fundo, em vez da raiva de Grinderman ou do lado mais depressivo das bandas-sonoras, é como se este fosse um plano intermédio, um limbo onde fica a tensão, mas que assume igualmente uma expressão musicalmente forte, ampliada pela voz dramática, teatral e soturna de Nick Cave. A libertação só se dá nos dois temas mais longos do disco, através de caminhos bem distintos. Há a via mais épica, naquele que é talvez o ponto alto do disco, Jubilee Street, com uma progressão musical notável, terminando com um coro quase festivo. Por outro lado, há a vertente mais esquizofrénica e caótica de Higgs Boson Blues, com uma letra surrealista que cita a partícula de Deus e a lenda Robert Johnson, mas também põe Hannah Montana numa savana africana e Miley Cyrus no Lago Toluca (!).

Enfim, Push the Sky Away acaba por, de forma particular, prolongar um certo e curioso paradoxo: a exposição da decadência contida e tranquilamente claustrofóbica através de um músico com uma vitalidade imparável e uma carreira cada vez mais notável. Celebremo-lo enquanto tal, obrigado Nick.