Noite de hip hop na Rua de Santiago, os pulmões ainda doem da subida. Chegámos em cima da hora marcada mas, a verdade é que nós somos vivos e sabemos como são as dicas, sendo então o atraso premeditado e legítimo. Pois bem, ninguém à porta. Termos ainda muito tempo, foi-nos confirmado depois ao entrar, pelo limar de arestas predominante. Tranquilidade. Perguntamos pelo Xeg, tinhamos conversa marcada com o MC, que nos deu algumas luzes sobre o seu recém lançado “Visão Clara” (conversa a revelar em breve, estejam atentos). Descobriram-no, fomos.

Mais tarde ao sair do back, avisados para o começo de Skills & The Bunny Crew, uma grande tristeza: um Santiago Alquimista autênticamente de tanga (já perto da meia-noite). Talvez em casa estariam mais pessoas ligadas à Balcony Session de hoje, pois no espaço físico, o pessoal no andar de cima junto com o de baixo estaria ainda assim longe de adensar por completo o stage. Estava eu distraído, quando começaram de rompante com “Rosa De Espinhos”. Skills é rapper numa atmosfera que saltita entre o rock, funky rap, e um pouco de soul que o leva também a cantar; as mudanças são velozes pelos The Bunny Crew, no baixo com José Garcia, Tropa na bateria e Pedro Mourato na guitarra. Banda que reúnia fãs na plateia, estes deram a “Luz Do Poeta” algumas vozes e a esperança de que talvez saibam quem foi José Régio (a quem a música é dedicada). Do recente disco de estreia, “Musa De Guerra”, surge o single “Grita Por Mim”, que antecede o final, em retrospectiva, com “Como Tudo Começou”.

Quem se segue em palco tem um alto teor de carisma: Tekilla acaba de editar o seu terceiro disco de originais num “Erro Perfeito”. Show man por excelência, DJ e nada mais, sem backs’s, rima e anima as hostes; MC em todos os sentidos. Para o começo é “Manda Vir”, iniciando-se uma apresentação quase integral do novo registo, que todavia não impediu que “Tekillogia” surgisse uma década depois, com a clássica “NCA”. Com referência ao dia da mulher é chamada Elaisa ao palco, habitual em trazer feeling e beleza às nossas noites de hip hop: dá voz ao slow “Cão e Gato”, que tal como o título indica e Tekilla confirmou, é uma música de love, complicado claro e dedicada às mulheres presentes na casa. Também Praga (Nigga Poison) surgiu em palco para aclarar a brisa jamaicana em “Serious”, numa prestação que fez remoer por não existirem sufecientes pessoas que desenvergonhassem os dançarinos ocasionais. No final, o homem não queria bazar: “põe a pen, nigga”, disse a DJ Iron, este pôs, e o beat que surge é “Amadurecimento”, última faixa de “Erro Perfeito”. Sai saudoso, impossível não demonstrar empatia com Tekilla.

Ninguém como ele ficou tanto tempo na entrevista de pós actuação da Balcony Session, mesmo à boca do palco, que receberá de seguida Xeg e onde DJ Núcleo estava já em exercícios de scratch para afinar a mesa. Antes do MC entrar, Núcleo mistura um medley de “Ritmo e Poesia” com “A Farsa”, “Respeito”, a culminar no beat de “Quando Escrevo” e na entrada em palco (acompanhado por Pofo), em ataque ao tema. Só o primeiro verso, surgem rápidas e no mesmo registo, “Fala-me Bem” e “MPC”, seguidas por uma possante “Filhos de Bambataa”. Um inicio sem silêncios, o “boa noite” surge agora, bem como o aviso que de seguida irá-se apresentar o mais recente material do MC. Primeiro foi “Maior Que O Mundo”, a homónima “Visão Clara”, “HH Junkies” com os dois rappers junstos, bem como, a intervalar , ainda XegPofo, a cuspir umas barras acapella. A “Visão Clara” prossegue no set list com David Cruz em palco para dar voz ao refrão de “Sonhos”, o seu single de avanço. Os convidados anteriores repetiram-se: primeiro Elaisa, que cantou o refrão no grande beat de “Mundo À Parte”, um som dedicado a todos os hip-hoppers; depois, novamente Praga, que surgiu em palco para pôr termo à actuação num refrão nostalgico em crioulo e a rima sentida de Xeg, em “Música”. Como nos referiu, antes do final, recuou-se ainda além dos dez antes de “Conhecimento” – tendo em conta a época em que foi escrito o clássico “Susana” – rimas e sorrisos nos lábios dos convivas. Na mesma linha, e já se tinha ouvido mais do que alguém a pedir, surgiu mesmo, não é afinal o que todos querem? “A Bicicleta do Povo”? Questionou Xeg, afirmando que “esse som é props” e recordando os tempos em que recebia emails e comentários reprovadores desta sua conhecida vertente lírica.

A madrugada já avançada beijava os rostos ensonados dos convivas, poucos, é certo, mas facilmente é constatável que não desarmaram, mantêm-se desde o inicio da longa noite. Um palco agora muito mais preenchido aguarda a aparição de NBC, das mais veteranas cabeças no nosso movimento , vinte anos passaram desde a sua primeira aparição com Filhos de Um Deus Menor, juntamente com Black Mastah. Há onze saiu “Afro-Disíaco”, primeira registo a sólo em formato de clássico, desbravando o trilho da fusão entre o soul, funk e rap – inédita por cá e onde igualmente foi pioneiro – confirmando-o depois de em 2009 ressurgir com “Maturidade”. Surge em palco como se do inicio da noite se tratasse, com barba de ancião e Gorillaz ao peito, congratula a malta pela resistência às longas horas e ataca prontamente a sua mais recente “Epidemia” com “Esta Era A Vida Que Eu Queria Ter”. De seguida, o espetacular sample de “Mudança” valsa contagiantemente no puro groove de bateria e baixo, brisas de guitarra e teclas, enquanto DJ X-Acto parte partituras como se controlasse todos os instrumentos numa perfeita e orgânica harmonia de breaks. É assim que NBC faz o seu rap, puro na conteúdo, volátil na forma; real hip hop, portanto. Imparável, perante a hora e a escassa plateia, percorre todo o palco, prosta-se de joelhos, dá lições de vida em introdução a cada tema, “epa, cinquenta, cinco mil, whatever”, disse. Com todos os anteriores ingredientes se fez“NBCioso” e, eram de facto poucos, mas, certo é: não houve cansaço, dores nas costas ou copos a mais que resistissem ao seu groove e à energia que o homem de Torres Vedras injecta. Espaço também para amornar, somente num registo soul com resquícios de Isaac Hayes, na música “Homem” do disco “Maturidade”; depois foi “Neve” da nova Ep, que antecedeu igualmente um daqueles momentos caricatos e expontâneos que só hip hop, de quando em vez, proporciona (sim, é verdade, acreditem). Tem-P dos GROGNation prontificou-se a ir ao palco do Paradise Garage, há dois anos atrás, em concerto do SerHumano – Hip Hop Por Uma Causa, quando NBC apelou a um MC na plateia para cantar com ele a “Segunda Pele”. Sábado, – dejá vu – o rapaz estava ali mesmo à boca do palco, foi só puxá-lo. Para o final, o rapper chamou quase tirânicamente toda a sua ‘família’ ao palco, quem teve vergonha ele foi buscar, enquanto se cantava “Acreditei”, o segundo single de “Epidemia” encerrou em festa a tardia Balcony Session, eram já quatro e meia da manha.