Duas décadas passaram e “Illmatic” perdura, imaculado, como o mais consensual marco discográfico na história do rap. Alguns descrevem-no como um novo ínicio, sendo que os pressupostos e temáticas propostas por Bambataa nunca antes se tinham materializado como em ’94, com Nas. E hoje, quando é relativamente impossível determinar uma linha para o que quer que seja, será conveniente e inspirador pegar no rato e vasculhar os muitos arquivos dedicados ao disco que originou este ano o documentário “Time is Illmatic”.

Como em qualquer bom projecto, o acaso e o imprevisto estiveram sempre presentes nos trâmites que conduziram a concepção e edição do álbum que, em 1992, estava já praticamente todo gravado. Estavamos no ano em que “Halftime” viu a luz do dia, protagonizou a banda sonora de Oliver Stone em “Zebrahead” e conseguiu, também, o estatuto de adiantado primeiro single de umpromissor rapper no meio underground, conhecido nas ruas à época como Nasty Nas.

O jovem Nasir Jones era então reputado por aluno de 2 Pac e protegido de Large Professor, pela mão do qual aos 17 anos devorou o primeiro verso de “Live at the Barbecue”, no álbum deMain Source, o clássico “Breaking Atoms” (1991). O mais surpreendente imprevisto foi a recusa para a edição dada porRussel Simmons, que na altura era o patrão da Def Jam. Algo que ainda hoje, por certo, lhe dará pontadas agudas, uma vez que os anos que se seguiram transformaram Nas e “Illmatic” num autêntico fenómeno urbano e cultural. Mas o mais surpreendente não foi a recusa por temores de flop, pois como é também tão natural, as grandes obras alcançam o devido reconhecimento tardiamente. E, neste caso, felizmente, não foram precisos muitos anos para o arrependimento de Simmons, que ousou referir que Nas soava a Kool G Rap (?!), episódio que o rapper mais tarde rimou em “Surviving The Times”.

Nas caracterizava-se por uma escrita tecnicamente inovadora e assumia-se como um verdadeiro vanguardista no que tocava askills, sendo que os anos que anteveram e, sobretudo, os que se seguiram a “Illmatic”, acabaram por consolidá-lo como MC de referência para qualquer rookie. O eterno cliché do rap elevou-se à sua imagem quando garantiu o epíteto de street poet ao transfigurar o subúrbio novaiorquino de Queens em rimas: “o cheiro, o barulho e as personagens da rua”, como referiu Q Tip, um dos gigantes do rap na rectaguarda de “Illmatic” (uma vez que apesar de fenómeno, Nas não passava de um estreante novato nos meandros da música). Além de Q Tip, dos pioneiros A Tribe Called Quest, Nas contou com o mais puro rap de DJ Premier, o irreproduzível soul de Pete Rock, e claro, as preciosas orientações e groove de Large Professor. Relação que, como em qualquer história, deu azo a que se instalasse polémica até aos dias de hoje. Esta a que Nas, tanto na altura como posteriormente, se referiu: o facto de Professor ter sido o editor de algumas das suas rimas. Bem, é sabido que qualquer bom escritor tem o seu editor, porém, este é um dado que nunca calhará bem aos ditos puristas do rap.

A Columbia agarrou o projecto, que tencionou tornar alargado e alongo prazo, o que acabou por lograr, uma vez que entre ’92 e ’93 os versos multissilábicos e rimas interiores em rítmo endiabrado já tinham invadido a rua. MC Search chegou a alegar ter encontrado 60 000 bootlegs de “Illmatic” numa garagem, em 1993. E foi o acaso que acabou por promover que o álbum fosse editado um pouco apressadamente, em 1994, contribuindo para a sua curta duração (menos de 40 minutos), característica que resultou numa das razões do seu sucesso e mestria. Apenas em nove faixas, escreveu e disse mais do que qualquer outro antes dele. Munido de uma energia e frescura que não havia, elevou o liricísmo a outro nível com um apetite insaciável por rimas e flows, deixando na história o indestronável protótipo de perfeito albúm de rap.Disco que nós, com assumida modéstia, nos propomos analisar segundo uma estrutura que não é a da wikipédia (vão lá conferir): primeiro as ruas, depois os skills e, por último, a cultura.

“NY State of Mind” é por muitos considerado o melhor som de Nas,e constante permanente nas listas das melhores músicas de rap de sempre. O papel do rap na música é o de reportar realidades que não têm voz própria e, antes de “N.Y. State Of Mind”, tal princípio nunca teria sido aplicado de tão literal forma, pela realidade que materializava em rimas as esquinas e becos de Queens e não só: haverão poucos versos que resumam melhor a cidade de Nova York como “I never sleep. Cause Sleep is the cousin of death”. Ouvir a segunda faixa de “Illmatic”, é ser teletransportado para os subúrbios novaiorquinos e ir deambulando por uma panóplia de sítios com personagens e acontecimentos que espelham a lei das ruas. Vemo-los em frames ilustrados por rimas, sequênciados nos puros breaks de Preemo. Este mais tarde revelou que Nas gravou toda a música num só take, depois de ter ouvido o beat e escrito a letra na mesma tarde, daquelas curiosidades/mito que perduram igualmente até aos dias de hoje e que o PA’ terá a ousadia de analisar. Vejamos: começando a ouvir a música, percebemos logo um primeiro indício, quando o baixo se adensa e, antes de começar a rimar, diz abafadamente: “I don’t know how to start this shit…”; de resto, é possível registar, ao longo de uma audição atenta, várias marcas de linguagem de modo a fazer ligações entre linhas e algumas paragens estranhas que, no entanto, não soam a prego pelo facto do rap se dividir em breaks que a intuição derapper nato não deixaram falhar nos tempos. E se “N.Y. State of Mind” representa a lei da rua, “Life’s a Bitch” assume-se como manual de sobrevivência para a mesma. É nesta faixa que surge a única participação do disco, o the next big thing da new school dos anos 90: AZ, que após participar em “Illmatic” e sair clássico, iniciou uma guerra entre a Def Jam e a EMI pela edição do seu álbum de estreia “Doe or Die” (1995). Acompanha um beatsentimental, a cargo de L.E.S, cheio de jazz, que no final dele recebe uma injecção fora dos samples: o pai de Nas, o lendário trompetista Olo Dara, que sublimemente termina a música. Líricamente falando e, só para concluir, os versos: “Life’s a bitch and then you die/That’s why we get high” são o que legítimamente se poderá apelidar de um ditado tradicional do rap (ou será da vida também?).

Adiantado em dois anos, o primeiro single e videoclip poderá ser descrito como uma autêntica cartilha de skills. Quantos de nós já não nos perguntámos como é que ele faz aquilo? Nas rebentou com a escála em “Halftime”. Isto resultou num dos principais ingredientes do enorme estatuto alcançado no meio do rap underground que, mais tarde, a industria viria a abraçar com o gosto amargo da subestimação. Catapultou para outro estado orap caracterizado por A Tribe Called Quest ou The Pharcydeque, por cima de minimais batidas e baixos cadenciados, faziam esquecer tudo o resto. Hoje é tipo: “vocês sem beats parecem aráras”, como vociferou Valete. Em “Halftime” é possível ouvir uma ave de rapina a perseguir o vento. O mesmo é dizer que o flow deNas caça o baixo de Large Professor, dançando ao seu rítmo, superando-o, até que dele nos esquecemos e resta só o MC. Isso é o rap, caros. “Cause I’m a ace when I face the bass”. Sim, é isso.

Expressão característica no hip hop e que após “Illmatic” mais ainda se perpetuou na cultura, “One Love”, numa abordagem simplista, trata-se de uma carta dirigida a um amigo caçado pelas adversidades que fazem com que o crime acolha crias e se encham prisões. Mas o rap, contráriamente ao que se possa pensar não é coisa simples. Uma mensagem centralizada é um manifesto de união e solidariedade globais com efeitos palpáveis geracionalmente. Tal como em “The World Is Yours”, o eterno clássico de Pete Rock, que conduz líricamente para a auto-afirmação e para o rompimento intelectual com o sistema, ou “Memory Lane”, que imortalizou outro dos eternos clichés do rap: o agradável back in days’ que acaba por afectar emocionalmente o ouvinte apelando à sua própria nostálgia, por mais que as vidas sejam diferentes. A razão de tudo isto, encontra-se no facto do rap não se tratar somente de um estilo de música. O rap é a expressão musical de um fenómeno cultural chamado hip hop, do qual também fazem parte o grafitti e o breakdance. Fenómeno cultural que preconiza, invariávelmente, a adopção de um estilo de vida com códigos e práticas próprias, profetizadas nos anos setenta porAfrika Bambataa, e mais tarde Representados por Nas em “Illmatic”: a solidariedade e união como forma de luta, alcançadas através da elevação intelectual do indivíduo perante o poder instituído e, ainda, a ideia de que nada poderá ser atingido se não olharmos as raízes e realizarmos que nunca sofremos sozinhos.

Por tudo isto, “Illmatic” de Nas ainda é o melhor álbum de rap de sempre. Nunca antes (nem depois) a cultura hip hop tão literalmente através dos skills se materializara. Uma cultura totalmente fabricada nas ruas como forma de rebelião organizada em oposição à violência e crime dos guettos novaiorquinos, canalizando os efeitos da segregação para a dança, música e pintura. A revolução profetizada por Afrika Bambataa produziu resultados jamais alcançados pela polícia novaiorquina e, tudo isto, apoiando-se num programa ideológico sem grandes cláusulas e termos: a união em prol de um ojectivo comum. Nas rimou as ruas de Nova York e falou dos seus, vítimas de um sistema que alimentam sem querer. Contou as suas histórias apelando ao seu criticismo, lembrando a importância das raízes no culminar de um sentimento de união transversal entre raças, países e continentes.Tudo isto é hip hop, tudo isto é “Illmatic”.

Por fim, jaz aqui a opinião de um veterano no que ao rap e à música diz respeito, primeiro nos Da Weasel, Dias de Raiva, anda sempre com um pouco de Algodão por perto e hoje está no activo com o recente projecto 5-30. Com o qual conversámos e, abraçando em pleno a profissão, demonstrámos um belo oportunismo jornalístico ao recolher declarações sobre “Illmatic”. Fiquem com as palavras de Pac Man: “O Illmatic ‘tá no meu top dos cinco melhores discos. ‘Tá Mos Def, De La Soul, The Roots e o Nas. É um grande disco. Saiu numa altura em que eu ouvia bastante rap e foi um disco mesmo ground breaking. Ele enquanto lirícista, MC… fez um trabalho filha da puta. Esse disco é seminal. É um clássico e há-de ser sempre um dos melhores.”