É difícil para quem ouve rap em Portugal nunca ter escutado sobre as históricas noites de Nova Gaia Hip Hip Sessions, no antigo Hard Club. Podemos, no entanto, não identificar o papel de porta-estandarte do rapper Dealemático na proliferação de um movimento embrionário, de norte a sul do país. Depois das primeiras festas promovidas por MDG a norte terem sido extintas, em 1998, Mundo e o restante esquadrão do 2º Piso agarrou o projecto, magicando também a gravação de cassetes clássicas como a compilação “Rocka Forte”. Alguns dos alicerces do movimento nortenho e do rap em geral no nosso país; os últimos dez anos trouxeram uma “Grande Tribulação” e também uma “Sólida Oportunidade de Mudança”. Hoje, a sapiência de quem construiu um sólido “chão” onde repousar a planta dos pés, dá a segurança de poder continuar a levitar.

Conheceste a cultura hip hop há cerca de 20 anos através do breakdance… Após esse primeiro contacto, quais os principais momentos que te levam ao rap?

O principal momento que me levou a escrever rap foi ver um videoclip de Public Enemy. Nós na altura dançávamos e um amigo meu disse “Ah, vocês não percebem nada de rap, vou levar-vos ali a minha casa e mostrar-vos uma banda, vocês vão todos bater mal”. Mostrou esse vídeo de Public Enemy, “Can’t Truss It”, e bati mesmo mal. Primeira vez que vi o vídeo, fiquei logo apixonado. A partir daí até hoje. Basicamente, foi ver um vídeo de Public Enemy que me fez escrever esta história toda. Vi o “Beat Street”, depois um amigo meu que veio da Suíça trouxe uma cassete que tinhas alguns intrumentais de rap – o passo a seguir foi começar a escrever… Sendo que eu já rimava, entre aspas, sem saber o que era rap. Porque os meus pais cantavam fado e faziam muita desgarrada, então já fazia de certa forma improviso. Isso introduziu-me basicamente ao mundo dos versos e das rimas. É engraçado porque a battle de MCs é em muito parecida com essa vertente do fado. A desgarrada no fado pretende ofender o outro, mas de uma forma engraçada. E, numa batalha de MCs, as melhores batalhas acabam por ser essas, em que consegues ofender o teu adversário e também deixar as pessoas bem dispostas.

Qual foi a cronologia que assistiu o processo criativo do “Segundo O Ancião”? Tendo em conta o tipo de samplesque vai na onda da sonoridade do “Alvorada da Alma” de Dealema.

Comecei a fazer o disco logo em 2007, lancei o “ Sólida Oportunidade de Mudança” em 2006… Foi desde aí. O própriosingle, que lancei com o NBC, foi escrito em 2007. Desde então, fui compilando músicas. Guardando aqueles temas que seriam intemporais e fariam sentido num álbum mais autobiográfico. Foi um conjunto de oito anos, até ter as músicas que eu queria. Em relação à minha produção: eu sempre fiz beats com muito soul, simplesmente, o pessoal da banda não escolhia tanto esse tipo debeats. Eu fabrico um pouco de tudo – soul, funk, clássica, gótico, rock… Nesta altura das nossas vidas estamos a explorar essa linha, tinha um monte de coisas já acumulas lá em casa. Pensamos que valia a pena ir por aí e trazer também uma lufada de ar fresco ao nosso som, o que acabou por se expandir para todos.

Conta-nos acerca do pequeno infortúnio que acabou por tornar-se um marco importante para abraçares a música a tempo inteiro.

Foi algures em 99/2000. Trabalhava numa fábrica e fazia música mais em part-time, digamos assim. E tive um acidente nesse trabalho. Trabalhava numa linha de montagem de ar condicionado e, felizmente para mim, essa empresa tinha seguro. Pude usufruir de algum dinheiro e no dia seguinte gastei tudo em material. A minha mãe quase me deserdava, passou-se… Basicamente, foi aí o ponto de viragem, quando decidi dedicar-me mais à música. Comecei a gravar com mais qualidade em casa, gravar também mais pessoal que pude ajudar. Tudo isso deu para fazermos a história de Dealema, as nossas histórias a solo, fazer a história de outras pessoas. Esse pequeno infortúnio acabou por ser uma sorte. [risos]

Tematicamente, o disco é uma continuação do teu percurso a solo, com a adição de uma componente bastante autobiográfica. É algo que, apesar de não implícito como um álbum de comemoração dos 20 anos, quiseste trazer como mensagem?

Sim, daí também o tema do álbum ser o “Segundo O Ancião”, a perspectiva de alguém mais velho no hip hop que foi acumulando histórias ao longo de 20 anos. A minha ideia desde início era fazer um álbum autobiográfico, e depois de ouvir as músicas todas, ao fim de muito tempo a matutar qual o nome do disco, surgiu essa ideia. E tudo se juntou: conseguimos fazer um composto de ideias que formassem um só. Tanto as músicas, a imagem, os temas – está tudo associado.

Qual o sentimento que mais se destaca neste percursso, desde o momento em que era só sofrimento, até que começaste (começaram) a viver da música?

Só um é complicado… Se calhar o que destacaria mais é a gratidão por, ao longo destes anos todos, conseguir fazer aquilo que gosto e viver disso. É o que todas as pessoas procuram na vida.

Qual é o balanço?

A melhor palavra para ilustrar isso é a luta constante. Estamos agora aqui a falar, saiu o disco… Daqui a três meses ninguém se lembra que saiu o disco. Voltas à luta.

Essa é a principal motivação? E o que mais te motiva e inspira, ainda, para criar?

Sim, essa é a principal motivação. E procuro muito que as outras pessoas me inspirem. Eu oiço muita música, consumo música massivamente, não só rap. E faço com que isso me faça uma pessoas mais rica musicalmente e que isso tranpareça para a minha música.

Fala-nos da experiência da utlização de músicos,tanto nos meandros produtivos, como na experiência ao vivo no Hard Club, na primeira apresentação do disco.

Quando já tinha as música mais ou menos feitas, comecei a ensaiar com o pessoal: um teclista, baterias e um baixista. E nesses ensaios sugiram ideias que acabei por incorporar quase no disco todo. E ao vivo funcionou ainda melhor. Tem outro impacto, é mais orgânico. Continua a ser rap porque optei por utlizar uma bateria digital, programada de beat para beat com os sons de bateria específico, em vez de bateria acústica que desvirtuaria um pouco essa marca que é a base do rap. Acho que foi uma experiência agradável para as pessoas. Eu fiquei muito satisfeito com o concerto e recebi um feedback muito positivo nos dias seguintes.

Qual o olhar que lanças a ti próprio enquanto integrante do movimento?

Não olho de fora, olho como uma pessoa que chegou agora. E vou criar como se tivesse chegado agora. O pessoal mais antigo diz que é velha escola. Eu sou da escola, percebes? Sou da escola toda. Olho para o hip hop não com nostalgia, mas como uma coisa que ainda tem muito futuro pela frente, e eu quero fazer parte desse futuro.