A noite no Porto-Rio tinha uma aura especial e esperava-se que correspondesse às expectativas. Aos Mouth of the Architect pedia-se um concerto intenso, da primeira banda… a essa, nada se pedia porque não se sabia quem era, pelo menos até iniciarem a sua actuação.

O duo misterioso, apenas com uma mesa cheia de pedais, computadores e pequenos teclados, começou a brincar com delays , a sobrepô-los e a desacelerá-los, acelerando-os de seguida. Tardou até a música arrancar realmente, mas mal se ouviram as primeiras notas graves tudo começou a fazer sentido — e os ritmos começaram a bater com os baixos e a compor uma música, toda ela muito lenta, muito grave e com grandes doses de psicadelismo, principalmente devido aos efeitos utilizados. Revelaram ser, nem mais nem menos, do que Jonathan Saldanha (Besta BodeMecanosphereFRICS) e o francês Nyko Esterle, que vieram a Portugal acompanhados por Steve Mackay dos Stooges (aliás, um ferveroso membro da audiência, tendo em conta a sua idade), e que se impuseram lentamente com o seuflow particular.

Fazendo uma metáfora, a mais imediata à percepção da música dos Fujako, nome por que o duo que abriu as festas para os Mouth of the Architect se identifica, é de que soavam à urbanidade, desde um comboio a passar em câmara super-lenta, ao som de um engarrafamento desacelerado. Utilizando referências musicais, as lições dadas por Tricky no campo da electrónica e trip-hop, em que este duo se movimenta tão bem, foram aqui bem aprendidas e aplicadas da melhor forma possível: recriando uma negritude que só se consegue com tamanha lentidão e baixas frequências. Foi, sem sombra de dúvida, uma óptima forma de começar a noite e fugir ao vulgo “banda-de-X+banda-de-XY”.

Depois da actuação de cerca de 40 minutos dos Fujako, chegou a vez dos senhores do cartaz. Os Mouth of the Architect, como quem não quer a coisa, subiram ao palco discretamente e, sobrepondo-se aos primeiros urros de alegria da plateia, arrancaram a fundo para uma bela explosão de 17 minutos que podia sintetizar o grande concerto que deram. Se de início esta música tardou em impor-se, principalmente enquanto foi instrumental, a verdade é que no fim o headbanging já era geral e inevitável, muito devido à existência dos três vocalistas que impõem uma força inegável em concerto.

É nisso que as músicas dos americanos nos ganham em concerto: em levarem-nos a curvar a espinha com tanta vontade quanto quando se saboreiam os riffs de guitarras carregados de delay típicos do post-rock. A execução dos guitarristas é, aliás, exímia nessa dinâmica e conseguem conjugar bem as notas mais agudas com os acordes graves típicos do género post-doom, com que facilmente se identificam.

Nesta conjugação mágica de metal intenso, os Mouth of the Architect deram-se mesmo ao luxo de revelar ao público, rendido após três músicas, que decidiam “na hora” o que lhes apetecia tocar: “não fazemos setlists, tocamos o que nos parece melhor na altura. Alguém tem preferências?” Há que salientar que a simpatia da banda era tal, talvez devido ao claro entusiasmo que sentiam em tocar num barco (“É a primeira vez que tocamos num barco. Isto é mesmo bom!”; “Estamos a tocar num barco, quão fixe é isso?!”), que todos os pedidos foram correspondidos.

O ponto baixo da actuação deu-se quando um dos guitarristas partiu uma corda e teve, por isso mesmo, de sair para efectuar a troca, enquanto a banda improvisava uns barulhinhos para passar o tempo. O ímpeto acumulado até então perdeu-se nesse momento e a recta final do concerto acabou por ser uma rampa de lançamento para o encore que os Mouth of the Architect tão bem prepararam (ou em que pensaram na altura), que arrancou uma mão cheia de aplausos bem merecidos.

Foi uma noite para se sair de barriga cheia do barco ancorado no Douro. Quem decidiu aproveitar a actuação dos Fujako, não obstante as óbvias diferenças de género, não podia ter melhor introdução, nem que seja devido à insistência nas baixas frequências, para a actuação que se seguiu. Actuação que, para todos os efeitos, era a mais aguardada da noite e que valeu bem a pena, apesar de alguns solavancos pelo caminho. No global, os Mouth of the Architect tiveram uma prestação bem à sua altura e é muito pouco provável que alguém tenha saído insatisfeito. Vá, no mínimo dos mínimos, deu para toda a gente tirar a barriga de misérias durante os próximos tempos. Seguindo esta lógica, “para o ano há mais,” como se costuma dizer.