Noite de electrónica num Musicbox esgotado ou lá perto, com um duo nacional e um internacional para agitar as hostes. Primeiro, os Aquaparque, nome de relevância no nosso panorama actual, muito bem-recebidos pela crítica e que iriam agora provar (ou não) o seu valor na sala lisboeta. E depois, o grande nome da noite: Mount Kimbie, considerados os criadores do Pós-Dubstep, que tiveram nos seus quatro Eps e primeiro álbum o demonstrar de um talento notável para um duo ainda jovem. Era a sua estreia em Portugal, e as expectativas estavam altas.

Passava pouco da meia-noite, hora marcada para o início, quando Pedro Magina e André Abel, também conhecidos por Aquaparque, entram em palco. Começam a tocar, e não soam mal. Teclados, uma guitarra com efeitos bem pensados, e camadas de som que, ainda que longe de impressionar, conseguem ainda assim encaixar na competência. Era o que esperava, já que Pedro Magina a solo tem por si só imenso interesse; quem o viu ao vivo provavelmente terá gostado daqueles teclados, daquelas melodias bem construídas. Mas há uma diferença entre os Aquaparque e Magina a solo: nos Aquaparque, Magina canta. E quando Magina canta, qualquer potencial, qualquer competência, qualquer qualidade que poderia existir perde-se. E se os Aquaparque sem voz se ficam pela mera competência (pelo menos é a ideia com que se fica quando não está ninguém a cantar), os Aquaparque com voz… são maus.

Vozes genéricas (sim, Abel também canta, e é igualmente mau), risíveis e que acabam por dar aos músicos uma postura ela própria nada boa para a banda. Magina grita de olhos fechados, dança com os pés, e chega até a puxar a t-shirt para cima; Abel inclina-se e canta para o microfone imóvel, com as mãos atrás das costas. Há ocasionalmente um outro pedaço mais instrumental, e aí as coisas melhoram, sempre longe de impressionar, mas as vozes não tardam a surgir e quando isso acontece tudo se afunda. O público nunca se entusiasma, à excepção de um grupo de raparigas um pouco histéricas, parado do início ao fim. É difícil falar das outras falhas (a incoerência existente por vezes entre teclados e guitarra, por exemplo) quando esta é tão óbvia e, sim, gritante. Custa a perceber a boa recepção que têm tido, quando ao vivo parecem um misto entre electro-pop azeiteiro (cantam em português, e meu Deus, aquelas letras…) e… chillout também azeiteiro? Por agora, estão longe de ser recomendáveis. Talvez com mais tempo isso mude. Mais tempo e muito, muito menos voz.

Tocaram perto de uma hora (demasiado, demasiado…) e rezava-se que os Mount Kimbie fossem ao vivo tudo aquilo que o duo português não é. À sua espera, Dominic Maker e Kai Campos tinham um palco com duas grandes mesas de mistura onde assentavam uma impressionante panóplia de maquinaria, e também um tambor, um prato, e duas guitarras. E mal entram em palco e se atiram a Carbonated, as preces são atendidas.

Desde logo é impressionante, acima de tudo, a coordenação existente não só entre os dois músicos (que não precisam sequer de olhar um para o outro) mas também entre cada loop, cada sample, cada som. Tudo minimamente bem construído através do manejo impressionante por parte de cada um dos músicos de todo o material que têm à sua frente. Ao vivo as canções ganham maior potência e impacto, graças ao trabalho sonoro a que cada música tem direito, e graças à forma como incorporam a guitarra e aquela mini-bateria no concerto (efectivamente, um dos melhores momentos foi quando um estava no tambor e prato e o outro na guitarra, com as mesas de som em loop a lançar uma verdadeira onda sonora). O público está rendido do início ao fim, com um verdadeiro tsunami de aplausos e gritos a seguir-se ao fim de cada música. E como não o poderia ser, com canções como Mayor a soar tão bem ao vivo? Ou Fields, que chega a ser tão envolvente quanto transcendente, graças àquele ritmo que vai subindo de volume e tom? Ou, claro, a magnífica Tunnelvision? É impossível estar parado, e olhando-se para o Musicbox vê-se apenas uma mancha enorme de gente que dança e sorri.

Vão do belo ao melancólico, do rápido ao lento, sempre de forma envolvente. O som está perfeito, e distingue-se na perfeição cada pequeno pormenor, cada pequeno som que ajuda a construir o todo tão perfeito. São ondas sonoras que envolvem o público por completo, impressionantes na sua construção e ainda mais na sua potência. O duo usa ocasionalmente a voz, e quando o faz tudo resulta na perfeição, encaixando nos sons que já iam sendo previamente construídos.  Estão visivelmente agradados com a recepção tão entusiasta do público, e vão fazendo os agradecimentos do costume, sempre concentrados nos instrumentos e na maquinaria que têm em palco. Fazem por vezes passagens sem pausa de uma canção para outra, mas no final pausam para preparar o que se seguirá. Os efeitos saídos da guitarra são impressionantes, e a mini-bateria é essencial para se certificar que tudo não se torna demasiado mecânico e artificial. Foi bem pensada e é ao vivo bem executada esta combinação entre electrónica e acústico, dando ao concerto um poder sonoro que de outra maneira não existiria.

Impressionam e excedem até expectativas, tendo dado em perto de uma hora um concerto exemplar do início ao fim, consistente na sua qualidade e surpreendente na sua execução. Não há encore (Kai sai a explicar, numa atitude honesta e louvável, que “Escrevemos um disco muito pequeno, e simplesmente não temos mais músicas”), e fica-se com vontade de mais, após um concerto que conseguiu tão bem encher as medidas. Têm lançado dois Eps por ano, e agora em Junho irão lançar mais um; com sorte, não demorarão muito a regressar. Com concertos assim, serão sempre muito bem-recebidos. Dentro do género, destacam-se em disco como parte da elite; ao vivo, mantêm esse estatuto.