Peckham, sudeste de Londres.

Não há como não arremessar, em nota introdutória, de onde são os Mount Kimbie. Negar-lhes a origem biográfica seria retirar contexto a Kai Campos e Dominic Maker, duo que em 2010 adornou o post-dubstep britânico com o debutante Crooks & Lovers. Arruado no mesmo espaço minimal onde James Blake surdiu e os The xx despontaram, este projecto pegou nas percussoras raízes de Burial e encheu-as de subtilezas IDM, traços de hip-hop desconexo à Flying Lotus e uma pop sorrateira tão bem transcrita em Before I Move Off.

Em Cold Spring Fault Less Youth, há nos Mount Kimbie mais do que o pulsar maquinal – utilizando sempre as criações electrónicas como argamassa, desta feita Campos e Dominic arriscam humanizar os seus intentos. Em pontapé de saída, o segundo disco dos ingleses dificilmente poderia ser mais descarado nessa mudança: a introdutória Home Recording deixa que as vozes se ouçam por cima de um tranquilo instrumental, fortificado a linhas de baixo, samples vários e um sintetizador que não se apaga. Quem canta? Os próprios Mount Kimbie, cuja introversão parece ter descido uns graus. As surpresas prosseguem – King Krule, adolescente de dezoito anos e nova sensação do underground britânico, cospe umas vagarosas palavras enquanto You Took Your Time ou Meter, Pale, Tone se desenvolvem sobre o descarnado e simples ritmo, sublinhado a chillout. De pronúncia vincada e métrica arrojada, Krule é personagem principal neste disco, concedendo-lhe uma alma que poderia ter ser sido estendida bem para lá das duas malhas onde surge.

Se Crooks & Lovers permanece um réu acusado de inconsistência, pela sua predisposição “hit and miss” a cada faixa, Cold Spring Fault Less Youth mantém essa curiosidade de quem pretende descobrir o seu verdadeiro papel no meio de tudo isto. Balançando entre o belo tom atmosférico de temas como Break Well ou Lie Near, desprovidos de linearidades, e as investidas upbeat quase house de Made To Stray, os Mount Kimbie disparam em várias direcções, mostrando-se mais interessantes quando não renegam as suas plácidas e instrospectivas origens. Sullen Ground é a melhor faixa deste registo exactamente por alagar o seu post-dubstep de sempre com a sua recente predisposição para as cantorias e, tal como Ruby se assume senhora do seu longa-duração de estreia, vence pelo seu carácter soturno.

Cold Spring Fault Less Youth está ainda longe de ser “o” álbum de Dominic Maker e Kai Campos – as suas experiências têm tanto de cativantes (a aposta nas vozes merece ser repetida e o convite a King Krule também), como de frívolas (as tentativas de acelerar as composições revelam-se estéreis e algo aborrecidas). Contudo, enquanto houver talento para edificar temas como So Many Times, So Many Ways, os Mount Kimbie terão luz verde para encontrar o seu lugar.