Yasiin Bey é um nome incontornável no que ao rap diz respeito, e, convém firmá-lo: no que ao verdadeiro rap diz respeito. O rap da inteligência no intervencionismo, da poesia e do flow eloquente. É proveniente da cena mais soul da vertente, juntamente com rappers como Common Sense e Talib Kweli, com o qual protagonizou Black Star, homónimo e único disco do duo de Mc’s, saído em 1998. Não é só um álbum clássico, mas também de culto. Como de culto é o primeiro lançamento de Mos Def, Black On Both Sides, saído em 1999. Inclui-se na patente que se poderá designar ‘síndrome do primeiro disco de rapper promissor’, à semelhança do que sucedeu com Nas e Illmati ou, mais recentemente, Lupe Fiasco e Food&Liquor. Dos tais discos que nunca ninguém conseguirá fazer parecido, nem mesmo quem os protagonizou.

Na semana passada o Coliseu recebia o vulto do dark Peter Murphy. O preço é o mesmo para ver Mos Def, mas esta noite de hip hop mima quem pagou bilhete com mais três actuações: KiluGroove 4Tet e o rapper brasileiro Emicida. Mas, afinal, afiguraram-se quatro: às 22h, o público no Coliseu era fragmentos de uma bomba de estilhaços, quando alguém irrompeu em palco. Não era Mos Def, mas a fisionomia enganou por momentos alguns elementos do público até às primeiras palavras: era o Jordan aka Jack Tha Ripper (antigo membro dos KGB). O homem tenta comunicar com o microphone mas não era preciso, pousa-o, e fala com a plateia instigando-a desatomisar-se. Tarefa ingrata, mas Jordan não parece incomodado, vai conseguindo contagiar a malta com o bom humor reproduzido no seu estilo descontraído; poder-se-á dizer um estilo próximo ao do homem da noite, sem qualquer maldade, no entanto: Jack Tha Ripper é um rapper bem particular no nosso movimento. Hajam dúvidas, elas dissipam-se ao saber que muitos dos beats por onde serpenteia lhe foram atribuídos por Kilu.

O homem que se segue, Kilu, é já um veterano; desconhece a maioria que se trata de um pioneiro no nosso movimento: ajudou a criá-lo e influciou-o profundamente. Muito por culpa de O Outro Lado Da Versão, de 2002, um álbum de epíteto vanguardista apesar do insucesso de vendas, trouxe-nos uma sonoridade nova, profundamente marcada pelo jazz e soul. Inédito na época e, por isso, demasiado avançado para a mesma. Até hoje, tem contribuído assiduamente com instrumentais em vários álbuns dos Mc’s mais pesados da cena tuga e, em 2011, lançou nova viagem músical com Motivo. Sons deste disco são apresentados à plateia sem, no entanto, deixar de visitar o passado, com a esplêndidaGirar o Planeta. Poucos a conhecem mas, mesmo esses, deixaram-se contagiar pelo puro feeling que a boa acústica conseguiu transmitir, directamente da mesa de DJ X-ACTO. O susto inicial desvaneceu-se: muita gente compõe o recinto e outra multidão se pode observar pelas principescas janelas, convivendo, aproveitando as cervejas em conta, partilhando um charro. Uma boa noite.

Os Groove 4Tet já estão em palco a levar a cabo a sua missão: impossibilitar a quietude no Coliseu dos Recreios. E conseguem-no. O quarteto vai lançando funkalhadas provenientes de Do The Right Thing, hoje repleto de apontamentos em homenagem ao falecido produtor J.Dilla. O hip hop faz-se através de samples ou fragmentos de outras músicas, com instrumentos, normalmente. O que torna momentos como o que os Groove 4Tet hoje protagonizaram, destruídores de esteriótipos musicais: uma banda (baixo, bateria, guitarra e teclados) a tocar músicas feitas numa caixa, por uma só pessoa, com o recurso a 24 botões e um ecrã de 12 polegadas. Ambiente de comunhão é difícil acontecer numa sala grande, no entanto este Coliseu contraria tal máxima: uma grande noite de rap invadiu o centro lisboeta, regada com muita cerveja e, claro, muito fumo; tanto que seria inútil o pessoal do Coliseu tentar fazer a lei.

O rapper brasileiro Emicida tem, nos últimos anos, atingido grande visibilidade internacional: conta até com uma faixa em colaboração com Dead Prez. Sendo que no Brasil já se tornou um fenómeno de populariade, devido às suas abordagens agressivas a temas políticos e sociais do país, conta com muitos fãs também por cá, estes que se manifestaram fortemente desde o princípio, e acompanharam as palavras do rapper em Dedo na Ferida: “mandando foder esse sistema filha da puta”.

Havia muitos fãs do rapper brasileiro neste Coliseu mas uma parte do público estava já ansiosa por Mos Def – foi uma longa noite, afinal. Eram já 00h30 quando Emicida abandonou o palco, não sem antes terminar com a Então Toma. Agora é possível constatar casa cheia no Coliseu dos Recreios, tendo em conta os handicaps ‘preço’ e ‘dia da semana’. Uma sala destas num concerto de rap é revigorante, até porque poderá incentivar a vinda de mais nomes grandes do rap internacional, algo raro pela crença na ausência de público.

Eram 00h45 quando o homem entrou em palco, já a dançar. Yasiin Bey, pela primeira vez em palco lusitano, entra com The Embassy, tema do último lançamento – Ecstatic, de 2009. Músicas deste álbum predominam nos últimos sets do rapper, frequentes são também os improvisos, interrupções abruptas do beat para sessões de barras acapella, sempre com classe, com o estatuto de quem pode, e sempre a dançar samba.

O primeiro momento alto a ser atingido foi com a entrada deAuditorium – com um beat de cunho épico, Mos Def recita um poema crítico da actuação internacional norte-americana. As músicas são mais curtas que as originais, e de um corte nasce outro som rapidamente. De tacada, Yasiin cuspiu as já sucintasWahid e Priority. Com Ecstatic ininterruptamente em riste, Black On The Both Sides surgiu pouco, contudo tal não impediu Yasiin Bey de saudar o público feminino presente com Mrs.Fat Booty. Alguns requests dispersos pela plateia: o mais consensual era Mr.Nigga, que não se repercutiu em palco, porém. Mas Mathematics não faltou, com Mos Def a posicionar-se bem na cara do público, enquanto dava lições de semântica e sintaxe a Mc’s – o momento alto da actuação. Para o final, uma sessão instrumental orquestrada por Mos Def enquanto dança incansavelmente, durante uns bons 15 minutos de beats sequenciados e scratch. Enorme ovação, agradecimentos linguarejados em português tal como na entrada. Mas a saída foi definitiva.