De chauvinistas e malucos todos temos um pouco, nem que seja pelo simples facto de não tolerarmos a um estrangeiro que se ponha a cuspir atoradas blasé sobre o nosso canteirinho. Assim sendo, não me porei em bicos de pés apenas para fazer de conta que, lá no fundo, não sinto sempre um certo orgulho (por mais irracional que ele seja) quando os Moonspell batem as portas às Portas de Santo Antão para logo enchê-las de multidão, uma rima que aqui fica bem como ficaria num manjericão. É como se uma espécie de caos, de desordem natural das coisas, invertesse os polos e trocasse o ártico pelo antártico. Não temos os portugueses a abrir para os estrangeiros, temos os estrangeiros a cortejar o espólio nacional e isso, em tempos estes onde soberania parece guião humorístico e onde auto-estima é exclusividade de poucos, sabe bem. Perdoem-me esta que é para muitos quase uma puerilidade, mas eu gosto do meu país, que haverei de fazer?

Os Moonspell, pondo à beira do prato todo o escárnio que por vezes se lhes agarra como chatos de verão, pouco precisam de inventar mais. Reconheço-lhes a paciência de querer experimentar um pouco mais, de oferecer mais do que o arroz. Para quem tem vinte e outros anos disto, e tantas bocarras e maledicências depois, ainda ter vontade de soar as estopinhas, e não bolçar outra vez o mesmo metal e o mesmo riff, é admirável. “Extinct” vem nesta lógica de não extinção, de não repetição à náusea, de um reencontro equinocial com o pretérito passado Type O Negative que lhes tatuou a entrada no novo século. É ele que no Coliseu tem voz activa com “Breathe (We Are No More)” e é ele o bendito rei nocturno de uma plateia ansiosa por de tudo um pouco, saliva-se “Opium”, silva-se “The Future Is Dark” na mesma onda média. Bandeiras portuguesas, de esferas armilares chinesas ou não (a globalização fica para depois, conta a intenção), estendem-se ao alto, ao alto estendem-se braços cumprimentado a ressurgida “Raven Claws” com Mariangela Demurtas dos Tristaniamostrando-se a Lisboa. Uma simbiose que encanta. Só não mesmeriza pelo Coliseu de acústica torpe.

O profissionalismo de quem é músico profissional há muito concedeu aos Moonspell aquele certo galanteio de banda grande, de banda que tanto poderia estar ali, em Lisboa, como numa grande casa nova-iorquina. Toda a atmosfera circundante é de concerto internacional, de stadium rock enfiado na cabeça de um alfinete, e há espaço para os hits, que tanto irritavam Cobain e tanto irritam Yorke. Para a maioria das bandas, porém, são leques indispensáveis que despertam, e os Recreios recreiam-se em “Alma Mater” – “Wolfheart faz vinte anos, parabéns – e, já no jubilante encore, “Mephisto” escuta-se do Rossio à Serafina. “Full Moon Madness” faz descer a cratera de Arquimedes como uma luva negra de cabedal e Lisboa, naquela sala, dobra-se num eclipse total.

Palavras de honra também para a locomotiva esdrúxula que faz de Almada sua necrópole. Que boa ideia a de ouvi-los ali em cardápio Coliseu aos Bizarra, num “Mortuário” que lhes parece já tão natural como todos os outros apêndices. Que grande banda, que por azar dos astros nunca noutras latitudes tiveram reconhecimento. Rui Bisarma Sidónio é um torneiro industrial para toda a obra e a Locomotiva fumega como um dínamo de aço ao lume entre velhos e novos carris. Entalados entre duas unidades de potência nacionais, os SepticFlesh, que pela nacionalidade grega também por estes dias questionam o conceito soberania, foram tímidos demais para uma noite que era extrovertida por condição natural. Quem já os viu noutras ocasiões, como a abrir para Amon Amarth, percebe que estes egeus não se dão bem com primeiras partes.