O PA’ deslocou-se até à Moita, singela e pequena vila que há já uma década é uma vez por ano capital do metal em Portugal. O ponto de encontro foi a Sociedade Filarmónica Estrela Moitense, fácil de descobrir uma vez estando na Moita, esta que contrasta pela sua arquitectónica. Mas constatámos outras coisas: que as queixas da vizinhança são impolutas – o Moita Metal Fest faz mesmo muito barulho; como também na sedosidade, brilho e isenção de pontas espigadas nas fartas cabeleiras que abanam incansavelmente. Em suma, tal como os cabelos dos seus mais altos-comissários, o movimento metal em Portugal está de boa saúde e recomenda-se. Dúvidas? Não existem, fomos parte de uma plateia bem numerosa e farta em camaradagem, provando que os Switchtense têm nas suas mãos um evento mais do que cimentado.

As portas abriram e a segurança não é apertada, o que incrementa um agradável ambiente familiar neste festival. O começo foi acertado para as 21h, hora do jantar para grande parte da população, ainda assim cumprido quase à risca devido aos termos de ruído acertados. Coube aos Aernus, banda da anfitriã Moita, abrir as poucas hostilidades. As composições incorrem bastante ao progressivo num death metal que no geral do concerto tornou o mosh pouco frequente.

Pelas 22:00, a casa estava já bastante composta, altura em que os  lançavam as últimas farpas da sua actuação. Seguiram-se os Terror Empire, eles que vieram de Coimbra com um thrash groovado e rijo que até podia ser, a momentos, um death ríspido. Acataram com força os temas da sua EP, sons que foram no geral bem aceites tanto nas trincheiras como à boca do palco. Fizeram abrir circle pits consideráveis, telemóveis perdidos e reencontrados, a velha comunhão da cacetada, suor e álcool.

Os próximos a subir ao palco foram os primeiros de outros nomes neste cartaz do Moita Metal Fest a vincar o seu cariz eclético. OsAtentado com um punk hardcore/crust desviam-se certamente das linhas rectas do metal mas isso não afectou de algum modo o ambiente sentido durante o concerto. O vocalista Rafael disse logo à partida o que se seguiria: “isto vai ser curto e doloroso”. E foi o mesmo Rafael, bem humorado aparentemente, que referiu “aqui vai mais uma bela canção de amor” antes de se ouvirem as primeiras explosões de Paradox e de se escutarem malhas do próximo colete de bombas dos Atentado, que prometem guinar por outras velocidades e contra-curvas.

Os senhores que se seguiram vieram serenar o pó levantado pelo mosh, abrindo desta feita a porta à cortina de fumo que se ergue entre o groove lento do doom destes rapazes. A qualidade é-lhes reconhecida no mais alto expoente do género – o Roadburn Festival, onde este ano vão até encerrar o cartaz base da melhor sala de sempre: a Green Room. Voltando à Moita, foi o que se esperava: cabeças a abanar, cheiro a marijuana e um concerto ao nível do que a banda tem demostrado, sempre com FÆMIN na ponta da língua e um estômago longe de estar saciado.

Já dispensam apresentações neste tipo de festivais, as inúmeras t-shirts com o seu nome confirmam-no. Claro está que os Bizarra Locomotiva foram a principal atracção deste primeiro dia de MMF. Rui Sidónio não trouxe o celofane mas atacou Egodescentralizadocom a energia do costume e mesmo antes de Desgraçado de Bordo já tirava a camisola. Imparável Rui Sidónio: prende-se no fio do microfone durante a asfixiante O Cavalo Alado e mete-se na pancada, dando o exemplo aos demais. Poder-se-ia confundir a realidade de um concerto de Bizarra com uma aula de body combat a cargo do incansável vocalista que é, de facto, uma autêntica locomotiva – tal como bestial e impactante foi o som que aquelas colunas cuspiram.