Quando se fala em Mogwai já não se pensa no filme “Gremlins” nem sequer numa palavra numa língua do extremo-oriente: pensa-se, fatalmente, em Happy Songs for Happy People, numa banda sonora para um filme sobre Zidane, em concertos inesquecíveis de tão intensos, no crescimento da cena musical escocesa, e em mais uma infinidade de verdades por detrás da história deste grupo mítico.

Deste novo álbum, adiantaram para a esfera pública (da Internet e não só) a grandiosa Batcat – o EP homónimo, editado pouco tempo antes do mais recente registo dos escoceses, já a alinhava com mais duas músicas. E muitas foram as expectativas criadas com uma amostra tão eficaz. Batcat não é só crua e intensa – está bem construída e extremamente bem pensada – nem tampouco é um exemplo isolado de boa música num álbum de dez faixas.

Batcat é os Mogwai no seu melhor, e o novo registo não lhe fica atrás. As expectativas foram correspondidas.

Desde os primeiros acordes que se fazem ouvir neste álbum que os Mogwai deixam algo claro: mesmo passados dez anos a fazer Post-Rock eles continuam a fazê-lo com muita classe e melhor que muitos. Um álbum claramente dentro género mas que percorre algumas das suas várias correntes não é mais que o assumir muito vincado dessa posição; principalmente quando todas as músicas, por muito heterogéneas que sejam, são muito boas, como acontece em The Hawk Is Howling.
Longe vão os tempos de Young Team, em que a abstracção trabalhava de mãos dadas com o um ambiente intenso, em que se ouviam vozes, conversas alheias, enquanto a música crescia atrás e acabava por nos sorver por completo – e às vozes também, acabando por se tornar parte das melodias. As palavras de ordem neste último álbum são, ao contrário do que acontecia há dez anos, estados e concentração: cada música pega num sentimento e explora-o, de forma precisa e focada, crescendo num registo único.
Arrojado?

Novamente, e como há dez anos, sim. Poucas são as bandas que funcionam num turbilhão, mas atrevo-me a dizer que também não são muitas as que conseguem separar o turbilhão e recriar cada momento dele com a mestria que os Mogwai fazem neste The Hawk Is Howling. É certo e claro que os escoceses conhecem bem a sua sonoridade e sabem o que fazer com ela.

Felizmente, algo não ficou com o Young Team: a juventude, talvez. Não sei ao certo qual é o ingrediente secreto que os Mogwaiutilizam para fazer música, mas não o perderam.Cada faixa neste último registo dos escoceses mostra isso. Mesmo que implique a música mais melancólica, ou até a mais ligeira, todas são únicas, todas são diferentes, mas todas são boas, e mais importante ainda, todas são Mogwai; são, novamente, paisagens pintadas somente com os instrumentos de forma muito eficaz. Talvez se deva isto ao facto de o produtor de há dez anos, Andy Miller, estar de volta, mas alguns créditos têm de sobrar para os escoceses, que fizeram do sucessor de Mr. Beast um exemplo brilhante de bom Post.

É surpreendente constatar que se consegue juntar músicas pesadas, a lembrar algumas bandas da HydraHead Records (como o são Batcat e I Love You, I’m Going To Blow Up Your School), e músicas tão ligeiras que até se lhes pode subtrair o ‘Rock’ do ‘Post’ (o exemplo fatal é mesmo The Sun Smells Too Loud), mantendo o álbum como um todo e fazendo-o soar a uma só banda; não é surpreendente constatar que os Mogwai e Andy Miller o conseguiram.

Que algo fique claro: se os Mogwai são verdadeiros demónios da música contemporânea é somente ao seu Post-Rock que o devem.The Hawk Is Howling grita-nos isso mesmo, com clareza e certeza. Basta deixarmo-nos ir com as suas músicas…