Se há banda cujo percurso pode ser considerado único e incomparável serão os Mogwai. Depois do lado mais rude deYoung Team e mais pesadamente melancólico de Come On Die Young e Rock Action, a banda escocesa construiu a partir daí uma espécie de sonoridade intermédia, algures entre o belo e o agressivo, entre o etéreo e o sombrio, entre o melódico e o experimental. Contudo, mais do que qualquer caracterização ou integração no rótulo post-rock, os Mogwai criaram uma linguagem e um estilo musical próprios, em que o último Hardcore Will Never Die But You Will, já deste ano, é um excelente exemplo. Pela capacidade de se reinventarem, de continuarem a desbravar caminhos num universo relativamente estreito, parecia impossível que qualquer obra sua, por mais arrojada que fosse e não descaracterizando o passado, conseguisse provocar uma tremenda surpresa. Este pequeno EP tratou de o desmentir frontalmente.

Com Get to France, tema de abertura de Earth Division, percebemos logo que não teremos aqui uma espécie de lado B do disco do início de 2011. Com piano e violoncelos e com uma ambiência altamente cinematográfica, o resultado é uma magnífica aproximação ao universo de, por exemplo, René Aubry ou Yann Tiersen. Segue-se Hound of Winter e, espante-se, temos aqui uma verdadeira e belíssima canção, que poderia pertencer facilmente a uns Mazzy Star, com direito a voz, guitarra acústica e harmónica. Todavia, o melhor estaria ainda por vir. A contrastar com a beleza delicada do tema anterior, Drunk and Crazy é marcado pela distorção e pelo experimentalismo. Mas, tal como em Rano Panode Hardcore Will Never Die…, de encontro da melodia no meio do ruído, da beleza no meio do caos. Poderia ser só isto e já bastaria para ser incrível, mas eis que se junta um lado profundamente melancólico, novamente com piano e cordas clássicas, para um dos temas mais inesquecíveis da carreira dos Mogwai. O fim deEarth Division, com Does this Always Happen, retoma o lado mais erudito do tema de abertura, mas acrescentando uma deliciosa e constante linha de guitarra. Lindíssimo e arrepiante.

É isto, apenas 4 temas, relativamente curtos, com uma duração total de 15 minutos. Será suficiente para constituir uma obra-prima discográfica. A resposta é um sim convicto.