“Até para morrer está difícil”, comentou sobre as recentes e escabrosas notícias que dão conta de que há famílias a pagar enterros a prestações. Allen Halloween, o sórdido filho dos subúrbios de Lisboa, vagueia pelo palco do São Jorge como se fosse um qualquer outro palanque – para ele não há diferença entre um dos históricos anfiteatros portugueses ou uma “escola preparatória”, como nos confessou em entrevista antes de entrar em cena. Trovador insofismável dos tempos modernos, o músico trouxe a uma das mais luxuosas avenidas europeias a realidade daqueles que não incluem a sumptuosidade no seu dia-a-dia.

Halloween nem se poderá definir como um comum rapper de intervenção, no entanto. Apenas diz a verdade, através de um flow intocável e uma interpretação que se desdobra em ziguezagueantes velocidades. Murmurando ou gritando, o músico de Odivelas fez-se acompanhar por DJ e dois membros dos ODC Gang – foi, aliás, um tema da sua crew que iniciou a noite: O Recreio marcou o compasso para uma Raportagem adornada comDrunfos, deixando um muito bem composto São Jorge na incerteza sobre continuar sentado ou levantar-se ao ritmo dos beats de Mary Witch e A Árvore Kriminal.

A sombria Lisboa, “cidade dos índios e cowboys”, impregnada de cheiros nauseabundos e esquinas ameaçadoras, irrompeu cinema adentro com Noite da Lisa e S.O.S. Mundo relatou cabalmente todo o dantesco cenário que à nossa volta se ergue. Tal comoHalloween disse, o som até poderá ter sido escrito 2005, mas nunca a letra fez tanto nexo como em 2012. “A queda do sistema à escala mundial […] encaminha o mundo para a auto-destruição, nação contra nação, irmão contra irmão”. Quem nega isto?

O Exorcismo de Mary Witch cunhou a primeira pausa do concerto, que acabou por introduzir um dos melhores momentos do show. O DJ fez-se beatboxer e Tó Trips, membro dos Dead Combo, juntou-se a Halloween para uma intensa passagem por Debaixo da Ponte. Dificilmente poderia ter mais crua e orgânica, principalmente para algo apenas uma vez ensaiado. No Love eCrazy prosseguiram a mais introspectiva toada, provando que o rapper é bem mais do que um simples malcriado, como tanto se afirma por aí – pena que quem precise dessas provas nunca se preocupe em visitá-las.

O final recuperou os dois hinos-mor do primeiro álbum da Bruxa,Mary Bu e Fly Nigga Fly, obrigando o São Jorge a vociferar todas as sílabas até ao fim da linha. Não tivesse o espaço cadeiras e o ambiente teria certamente sido ainda mais voraz. “Quero dizer a todas as pessoas que me odeiam, que eu as odeio mais”, confessou um Halloween que, segundo o próprio, ainda não aprendeu a ignorar quem dele desdenha. Enemies, novo tema de ODC Gang, a elas respondeu e encerrou definitivamente uma noite onde a realidade veio à tona do coração da capital.