Carregando às costas um estilo que ajudaram a criar, os Misfits trouxeram uma vez mais até nós o imaginário e a estética do cinema de terror cruzados com o punk, agora de cara lavada com o seu novo trabalho The Devil’s Rain. Após incontáveis mudanças de formação ao longo da história da banda, o baixista e vocalistaJerry Only é o único “sobrevivente” dos membros fundadores, mas a aura lendária e o legado com mais de três décadas já fazem com que não importe quem interpreta as canções, como se estas tivessem ganho existência própria.

Para a abertura da noite foram convidados os Beretta Suicide e os Juicehead, que enfrentavam a complicada missão de gerir a ânsia pela chegada dos Misfits, e a verdade é que quando os primeiros deram inicio ao seu concerto a sala ainda estava com a sua lotação a metade. Com uma carreira tão curta quanto o seu alinhamento, os britânicos Beretta Suicide apresentaram cinco temas auto-intitulado Ep de estreia em estilo showcase, debitando decibéis de rock sujo e empoeirado, cheio de atitude e confiança mas que não consegue disfarçar a influência de Motörhead, devidamente modernizada. Com uma boa presença em palco e um sem fim de malabarismos do baterista com as suas baquetas (nem sempre com final feliz), rapidamente concluíram a actuação, perante uma plateia algo dispersa e desatenta.

Seguiram-se os Juicehead, novamente um trio mas com uma postura e sonoridade diferentes da banda anterior. Os norte-americanos debruçaram-se sobre o meu mais recente registo, How to Sail a Sinking Ship (editado pela Misfits Records), acrescentando velocidade e ânimo à festa. A banda de Chicago mostrou-se confortável em territórios punk-rock da velha escola, carregando os seus temas com riffs agressivos e refrões perfeitos para cantar em coro. O público esboçava as primeiras manifestações de entusiasmo no “pit”, explicadas pela crescente excitação para ver subir ao palco os Misfits, algo que os Juicehead souberam aproveitar estabelecendo uma ligação próxima com o público, sobretudo o baterista Mike Garelli e o vocalista Rob Vannice, com as suas mil expressões faciais por minuto.

Mas a razão pela qual o Cine-Teatro de Corroios se encheu de icónicos logotipos em forma de caveira, essa, não era segredo para ninguém, e de um momento para o outro fez-se noite de halloween em pleno Fevereiro. Com uma entrada pomposa, ao som de trovões e da chuva do inferno, com um look zombie e surreal quanto baste, os Misfits arrancaram a um ritmo alucinante: as canções encadeavam-se quase sem pausas separadas apenas pelo sinal “um, dois, três, quatro” de Jerry Only e a um volume ensurdecedor, exactamente como deve ser, embora nem sempre com a melhor definição sonora, que foi melhorando lentamente. Contudo, o empolgamento foi esmorecendo à medida que se percebeu que apenas estavam em jogo temas do mais recente disco, a partir do qual foram despejadas mais de uma dezena de malhas, em jeito de prólogo, que desembocaram numa pequena paragem. Esta funcionou como uma viagem no tempo, pois foi o separador para um segundo acto que pareceu um novo concerto.

Os clássicos pelos quais tanto se aguardava tinham chegado, começando por She, que Jerry afirmou ter composto com 17 anos de idade! Seguiu-se American Psycho, que gerou a primeira grande vaga de agitação e encetou a comunhão entre a banda e o público, tão clara nos cânticos em Dig Up Her Bones e, claro, emScream. Depois, o vocalista mostrou que os Misfits continuam a conquistar novas gerações: não só dedicou Monkey’s Ball à sua filha mais nova como apelou à voz do público para cantar Skulls e, melhor ainda, interrompeu o tema a meio para chamar ao palco um miúdo com pouco mais de dez anos que, tão competente como delirante, ajudou Only em todos os refrões e viveu momentos que nunca mais esquecerá.

A intensidade da actuação encontrava-se em marcada ascensão e as obrigatórias Where Eagles Dare e Halloween acentuavam isso mesmo, surgindo 138 ainda antes de uma nova paragem que ninguém acreditou que fosse fatal. Pouco instantes volvidos, Jerry Only retira o fato e rompe a nuvem de fumo, confirmando que ainda tem o que é preciso para, noite após noite, levar a banda a bom porto e fazer justiça aos bons velhos tempos. Com Eric “Chupacabra” Arce, que mal se via por detrás da parafernália onde estava instalada a sua bateria (digna de uma concepção de Tim Burton) e Dez Cadena, que além de guitarrista também reforça as linhas de voz e ainda cantou um tema a solo, forma o actual trio, que se lançou a mais duas malhas “à antiga”, entre as quais não podia faltar Die, Die My Darling, o encerramento perfeito para uma performance que se foi sempre superando.

No final, já sozinho em palco, Jerry Only dirigiu-se ao público relembrando que a sua carreira já leva 35 anos de existência (mais do que anos de vida da maior parte dos presentes) e que não houve uma única noite que não tivesse valido a pena, brincando ao dizer que os Misfits são a melhor banda do mundo. Antes de distribuir autógrafos e cumprimentos a todos os interessados, mostrou ainda que ter vícios destrutivos não é um requisito para se ser punk a sério, manifestando o seu desagrado com a quantidade de fumo da sala e aconselhando todos a deixar de fumar. Muito bem, Jerry!