Sexta-feira (dia 26) os portões para os restantes palcos foram abertos perante o regozijo geral. Prognosticava-se magia entre piscina, taina e recinto principal, com os “peregrinos milionares” a afluírem e confluírem para um certame que se imaginava variado e conquistador. Na piscina, local profético do Milhões, corpos seminus perdiam a vergonha e ousavam a luz e o dia, depois de um ano de recolhimento. Desejoso pelo início da festa, o público enfrentava o sol com a mesma coragem com que mergulhava na piscina.

Sabendo que o Milhões reúne todos os credos e tendências, o mote era dado pelos Juba, no palco da piscina. Estes autodefinem-se como produzindo uma espécie de “hindu surf riot”. Apesar das poucas ondas, a maré leva-nos para um surf-rock com laivos de psicadelismo, que combina de maneira irrepreensível com óculos de sol, tangas e calções e banhos retemperadores nas cálidas águas onde a cadência lenta dos movimentos nos leva para um imaginário quase espacial, algures pautado por um Brian Wilson em ácidos. Tempo para experimentarmos a conjunção de dois extraordinários executantes. Yonatan Gat, guitarrista talentoso dos Monotonix, que viajou de Tel Aviv para se juntar a Igor, dono e senhor de uma técnica explosiva nos Throes + The Shine. O resultado só poderia ser uma sessão de jam cheia de talento e força e que findou com o público a juntar-se à linha de percussão para um resultado agressivo e onde a dupla mostrou uma tremenda capacidade de improviso. Os jovens e promissores Adorno entraram em “campo” para uma lição de punk/post-hardcore. Estudaram bem o legado de clássicos como os Fugazi e deram um concerto irrepreensível. A melodia frenética convida ao headbang, e as letras, afectas ao sentimento sugerem-nos sempre uma abordagem apaixonada, emocional e até inocente. Ideal para um entardecer, onde a fúria se confunde com o afecto e capacidade de reflexão. Suor e lágrimas. Depois de bem enxugadas e num twist sónico, a larva transforma-se em borboleta. Falo da metamorfose de Adorno para Papaya, que nos apresenta um resultado mais tropical e colorido do hardcore. Como a fruta, adocicada, torna a experiência tropical, mas uma banda que combina na perfeição com o ambiente de veraneio da piscina, em que o ritmo do baterista Ricardo Martins embala os corpos para um extraordinário ritmo. A piscina encerrou com Dam Mantle, que chegou para um set que serviria de aperitivo para o concerto do dia seguinte. A sua versatilidade permite criar um ambiente calmo, e a sonoridade com tons jazzísticos e pastorais em ritmos lentos traçam um quadro de tranquilidade, ideal para ganhar forças para os concertos que nos esperavam durante a noite. A dança podia esperar, haveria tempo para Dam Mantle nos pôr a gingar. [CT]

No entanto, não só de Piscina se fazem as tardes no Milhões. Também há a Taina, certamente um dos palcos mais bucólicos que podemos encontrar em festivais de verão. Ao contrário do ano passado, o palco estava no lado oeste do espaço, permitindo apreciar muito melhor a descida do sol enquanto se assistiam aos concertos. Em sentido inverso em termos de qualidade estiveram o som, que a meio caminho entre colunas e zona de comes e bebes já era quase imperceptível e geralmente muito susceptível ao vento, e a capacidade de se poder ver os músicos, dado o palco ser muito baixo, tornando quase impossível de o fazer assim que umas quantas pessoas se levantavam e se colocavam perto dele. Foi precisamente nesta condição de escondidos por trás do público que os Quelle Dead Gazelle deram muito simplesmente o concerto da tarde por estas paragens. Felizmente a beneficiar de um som extremamente coeso (não havia muito vento), a dupla lisboeta deixou claro que não é à toa que o EP homónimo tem sido dos lançamentos de rock mais bem recebidos em Portugal no ano em curso. Impressiona a simplicidade com que passam da introspecção à explosão, do afrobeat que pauta o inicio deMadrasta ao math rock que predomina em Fillow Pight, deixando-nos sempre com a irresistível tentação do movimento, seja este mais pelo lado da dança ou pelo do headbang, a seu tempo tudo fez sentido. Poucos sons terão estado tão enquadrados debaixo do sol do início da tarde como os apresentados pela guitarra de Pedro Ferreira e superiormente complementados por Miguel Abelaira na bateria.

Mais tarde, era chegada a hora de dar continuidade ao programa SWR no Milhões, desta feita com os vianenses Waste. O thrash que apresentam até tem alguma piada e é executado como deve ser, mas como é natural numa banda tão nova e num estilo tão padronizado, acaba tudo por soar ainda demasiado igual a tanta outra coisa que já se ouviu. Por outro lado, a entrega de quem gosta daquilo que faz, essa está lá toda. Refinando um pouco a composição e vendo-se livres de alguns tiques desnecessários na comunicação com o público (aqueles “bora lá pessoal” chateiam tanto neles como em tantas outras bandas de estilos semelhantes) podem vir a tornar-se em algo interessante. Quem já percebeu que basta serem iguais a si próprios e estarem compenetrados na fina arte de distribuir chapadas musicais são os conterrâneos Mr. Miyagi. Os autores do recente There’s no Destiny…Enjoy the Ride!têm por esta altura uma identidade bem delineada, com o punk/hardcore injectado de riffs que tresandam a rock do bom a deixar poucos presentes indiferentes. Foi portanto com as deambulações de Ciso San por um público em constante movimento ao som que os outros Sans todos iam debitando que fechámos, e bem, o palco Taina neste primeiro dia de festival. [LP]

Um dos destaques da noite era a presença de  e da sua banda. Falando do ano de 2013, é quase impossível não referir o disco do artista de San Francisco. MCII transformou-se num álbum de alta rotação e merecido hype. Em palco, Mikalmostrou muitas das qualidades que agradam aos fãs, com um alegre fuzz, canções curtas e incisivas pintalgadas com um rock lo-fi, em que alguns clichés inocentes do rock são alegremente triturados por músicos competentes, cientes do produto que criam. Não tarda até ouvirmos alguns dos hits principais como o sãoWeight ou Changes, do último álbum, que se misturam com Get Along e Gone, malhas do disco de estreia. Alguém no público sussurrava não ter idade para a música do multi-instrumentista. A crítica não estava longe de espelhar uma das maiores qualidades da música e set de Cronin que é a descrição enfurecida da juventude moderna, reflexões dolorosas do crescimento entre riffs de guitarra, desespero crónico. Mesmo assumindo a timidez (nisso faz escola com o lo-fi de Ty Segall), Mikal consegue articular nas suas canções confrontações complexas camufladas no rock’n’roll emocional que cria. Trabalha num monólogo que partilha com todos, segredos cúmplices que ficam almofadados na ternura da sua guitarra e que são contagiosos e enternecedores. Não havia mosh nem fúria. A honestidade de conectar as pessoas de maneira emocional é demasiado palpável, um exercício de introspeção sob a forma de um concerto. E a lição pode ser dada quando as agruras da vida merecem ser transformadas na doçura das melodias.

Com o holandês Jacco Gardner ao leme dirigindo nas teclas a sua orquestra de psych-rock, caminhamos para o palco principal, onde a sua música impressionou os mais distraídos. É fácil notar as influências de criação do seu pop barroco. Na imensa amálgama sonora, notamos influências de Syd Barret, Brian Wilson, John Lennon e até de Zombies. A sua música tem apontamentos deliciosos, caprichos de nostalgia, som abafado, e um imaginário de máquina do tempo. Com delicadeza e suavidade, Jacco Gardner mostra-nos Cabinet of Curiosities, álbum que é uma espécie de conto de fadas pitoresco, onde há fábulas a cada esquina, focos de luz e sombra projetados por um doce instrumental. Sussurros de existencialismo, algures entre a morte e a vida, as músicas prosperam naturalmente pela influência dos grandes maestros. As raízes dos anos 60 estão firmes e a sensibilidade exuberante dos romances psicadélicos criados, leva-nos para um sítio melhor. O público parece conquistado. Os sorrisos nascem, as palmas invadem o palco Vodafone, pela competência com que Jacco e os seus amigos nos entregaram numa bandeja um luzidio e irrepreensível concerto, onde não faltaram as canções de destaque como são Watching The Moon e The One Eyes King. [CT]

São cerca das onze da noite e começa-se a escutar um duelo de baixos no palco Vice. De parada e resposta, do groove de Tójó à subtileza de André Simão e daí para uma explosão de barulho e strobe light a la MBV, já com mais três guitarras e duas baterias a juntar-se à cacofonia. Começava o Armageddon Concertoportuguês, pela mão dos Black Bombaim e dos la la la ressonance. As duas bandas proporcionaram-nos um momento único de experimentação com a sonoridade uma da outra. Mesmo quem estivesse habituado ao groove descontrolado do power trio mais fixe da nossa praça ou conhecesse pormenorizadamente as intrincadas deambulações dos autores de Faust teve neste peculiar concerto a oportunidade de os ouvir quase com a ingenuidade da primeira vez, já que na sua maioria os temas não apareciam na roupagem original, antes trabalhados entre as duas bandas para criar algo novo. Em jeito de comparação com o que os Black Bombaim haviam feito o ano passado com os Gnod, o concerto deste ano teve um fio condutor muito mais claro, denotava uma preparação e um processo criativo prévio para lá do mero improviso ao vivo, fazendo com que no final as diferenças entre as bandas fossem esbatidas para dar lugar à peça que criaram para a ocasião. Para que não fiquem dúvidas, ouvir aquele riffalhão de C a ser trabalhado por André Simão e companhia durante minutos a fio apenas para explodir próximo da sua encarnação original (comPaulo Araújo em grande nível a substituir Steve Mackay) foi dos momentos do festival. [LP]

Regressamos ao palco principal para assistirmos ao concerto dos canadianos Austra, ousados intérpretes de uma espécie de dark-synth-pop. Dark, talvez só para se referir à música, visto que a sua vocalista Katie Stelmanis aparece em palco vestida de maneira berrante, indiciando festa. Desde o primeiro momento damos conta que a música dos Austra vive focada na potente voz de Katie. A sua interpretação parece em certos momentos pouco respaldada pelos instrumentos, o que cria numa excessiva exposição da mesma. Ainda assim, o baixo, pulsante, marca o ritmo por entre beats do sintetizador de inspiração tecno e a melodia adolescente convida à dança. Ateando o fogo etéreo do pop, o público parece pouco habituado a estas viagens. Delicadezas à parte, e apesar da sensibilidade pop, há uma certa crise de autenticidade na música dos Austra. Tudo parece demasiado volátil e o poder aglutinador do estilo quase gótico com as batidas cria uma sensação de vazio na música dos canadianos. O público parece fora da sua zona de conforto e os beats tardam em catalisar a festa. As baladas mais lentas e sonolentas, deixam-nos a meio do caminho entre a felicidade e o aborrecimento. O anticlímax cria a frustração de um concerto algo inócuo, sem particular prazer nem fascínio. [CT]

O primeiro dia fica também marcado pela forte presença de krautrock no recinto principal. Em primeiro lugar tivemos os Papir a estrear o palco Milhões nesta edição. Como é habitual no primeiro concerto do dia, muitos dos presentes sentaram-se nos vários níveis de degraus do recinto para apreciar o instrumental psicadélico do trio enquanto observavam o por do sol. Extremamente tímidos na conversa com o público, os dinamarqueses perdiam muito rapidamente as reservas assim que se atiravam aos instrumentais. Longe da intensidade exibida mais tarde pelos Camera, cumpriram muito bem o papel de abertura de noite que lhes cabia. Já os alemães mostraram que Michael Rotter não estava a brincar quando os escolheu para lhe servirem de banda de palco para tocar músicas de Neu! e Harmonia. Claro que ser tecnicamente apropriado para tocar música já escrita significa zero no que diz respeito à criatividade, mas no caso dosCamera a notoriedade foi conseguida através dessa mesma qualidade de escrita e uma atitude DIY pouco vulgar. Dos metros de Berlin para a companhia das lendas do género e passando peloRoadburn antes de chegar ao Milhões. Depois de ouviremRadiate!, álbum de estreia da banda editado em 2012, digam lá que é assim tão surpreendente que tenha sido o concerto da noite?

Seguiam-se os Ufomammut, sobre quem havia a natural curiosidade de verificar se conseguiam passar para espaço aberto a densidade no peso que haviam transmitido no Hard Club durante o Amplifest. Em vez de vermos os italianos emersos nas suas habituais projecções (que desta vez apenas ocupavam uma pequena área acima da banda) e com um som tão denso que se sente, tivemo-los a ocupar o vasto espaço através de volume puro e, infelizmente, algo desequilibrado. Isto porque apenas as componentes mais graves do som soavam trovejantes e imponentes, perdendo-se todo aquele corpo distorcido que deveria dar corpo aos riffs. Tal como haviam dito recentemente ao PA, apresentaram uma versão mais concisa de Oro do que aquela que testemunháramos uns meses antes – o que faz todo o sentido visto que o ciclo de promoção ao álbum já terminou – terminando comStigma, tema retirado de Idolum. Apetece-nos ficar por aqui e dizer que, apesar de tudo e como ficou patente pela calorosa reacção do público, se tratou de uma bela actuação, elevada pela intensidade com que Urlo e companhia se entregavam à sua música, o que até é parcialmente verdade, não fossem as limitações inerentes ao material escolhido. Oro não é um mau álbum, tem aquele som cheio de que tantos gostamos, mas insiste em si próprio até à exaustão e nem a versão mais contida disfarça o facto de os riffs que lhe formam a base não serem assim tão bons. Respeita-se a opção por tocarem aquilo que melhor os representa na fase actual da carreira, mas que temos saudades do groove de uma Odio ou da jarda que é Eve, isso temos. [LP]

Voltámos então ao palco Vice para um final de noite em que Otto Von Schirach foi o grande protagonista. O produtor germano-cubano comandou um poderoso set de electrónica caótica e avassaladora, levanto à fritura do cérebro da maior parte dos resistentes. É difícil caracterizar a sonoridade deste produtor. A complexa fermentação sonora faz-se com os componentes mais variados. Se podemos definir de maneira geral como breakcore, há elementos de grindcore, rock, dub step numa atraente miscelânea de fácil efervescência. O groove é profundamente aditivo e uma vez no ritmo, é difícil tentarmos parar os movimentos ousados do nosso corpo e os beats que entram no nosso subconsciente de maneira desenfreada. A loucura toma conta do set e o público, numa estranha experiência onde há um fluxo interminável de componentes sonoros que constroem diferentes texturas rítmicas, utilizando os sintetizadores como se de brinquedos se tratassem, de maneira avassaladora e frenética. A noite termina, com João Vieira (X-Wife, DJ Kitten), mostrando o seu novo projecto White Haus em formato de DJ Set. O propósito é simples: manter toda a gente a dançar. A receita: uma mistura de electrónica, funk inspirado em Moroder, e ambiente punk. O resultado: O extasiado público fazer um último esforço por manter a cadência antes de voltar à sua tenda para dormir. [CT]