Após a aclamada edição do ano passado do Milhões de Festa, 2013 apresentava-se como um complicado desafio para o festival barcelense. Com edição atrás de edição a conseguir não só misturar os mais variados fãs no mesmo recinto, como agradar à maioria deles e criar um ambiente de celebração transversal aos gostos pessoais, criou-se uma espécie de culto à volta do festival. Ora, como o “ambiente” é o que cada um e os seus fazem do festival, falemos então daquilo que este fez por nós, que é como quem diz, falemos daquilo que realmente interessa – dos concertos, que de uma forma geral mostraram uma clara melhoria em relação à edição anterior. [LP]

Tendo como paisagem o Rio Cávado e suas margens, numa radiosa tarde de verão, chegamos ao Palco Taina, onde estava marcado o início da longa jornada de festa do Milhões 2013. Os sorrisos e as conversas tinham como banda sonora Tamar Aphek, que iniciava por essa altura o seu concerto, estreando o palco com a sua guitarra acústica ao colo. Vinda de Israel, a antiga guitarrista e vocalista do grupo Carusella, algo irritada pela falta de silêncio vinda da plateia, sussurrava canções com a ajuda da sua guitarra, crua e frágil, onde os laivos de stoner do passado se notavam em pequenos apontamentos. [CT]

Ainda não havia caído a noite quando os Phase subiram ao palco para nos proporcionar uma muito boa actuação. O duo composto por Ghuna X e Ricardo Miranda enveredou por territórios essencialmente electrónicos, não raras vezes com um vincado carácter industrial. Este demonstrava-se sobretudo na afinidade pelo peso, reminiscente por exemplo daquilo que acontece em RA, não obstante as enormes diferenças no ambiente criado, mais quente onde RA é frio, mais psicadélico e expansivo quando este é negro e incisivo. Fica a ideia de que encaixariam perfeitamente no palco Vice numa edição futura. Até lá, os Phase foram a abertura ideal para mais uma edição do Milhões. [LP]

Tempo então para uma bela tainada e ambiente incendiário a servir de mote para o churrasco. Falo dos projetos Canzana Cangarra e da agregação interessante dos dois. Primeiro, o som visceral dos Canzana, num duo onde combinam com uma intensidade impressionante a força do saxofone de Pedro Sousa(Pão) com a guitarra energética de Bruno Silva (Osso, Sabre), numa experiência violenta que conjuga influências das parcerias Sonny Sharrock com Peter Brotzmann. É uma experiência extrema onde o som é cru e cáustico. A metamorfose do concerto, em directo, foi uma belíssima experiência. Quando os Cangarra Ricardo Martins (baterista de Adorno) e Cláudio Fernandes(guitarra, ex-debut!) se juntaram à festa, isto resultou numa adição inda maior de fúria e pendor sónico. Extraordinário exercício de liberdade que perdurou até aos Canzana deixarem os Cangarra sozinhos para finalizar o set, com uma aura de psicadelismo bruto, mas meticuloso, onde a ferocidade da bateria se misturou com os riffs ardentes na guitarra num tremendo exercício de ruído.

O nome do disco de SpacinDeep Thubs, ou Batidas Profundas em português, é um bom ponto de partida para explicar o concerto da banda. A profundidade caracterizada pelos trilhos do rock mais espacial cruza-se com uma produção de rock’n’roll mais directo. A voz abafada, ressoa no microfone enquanto o ambiente é soturno, cheio de espaços e silêncios. A cadência lenta com riffs hipnóticos arrasta um som que flui lindamente entre goles de cerveja, numa noite de verão. Sujo e directo, como qualquer lição aprendida entre os Stooges ou os Velvet Underground, as guitarras cruzadas ecoam de maneira profunda nas nossas entranhas. Viajamos no espaço sideral e aterramos novamente nas margens do Cávado esperando pela festa que estava para vir. [CT]

Não sendo propriamente um festival em que a distribuição de cacetada é o prato principal, já se sabe que dificilmente se passa um Milhões inteiro sem uns quantos mosh. Assim, e porque o clima prometia ser mais frio do que em anos anteriores, nada como duas boas descargas para aumentar a temperatura. Falamos naturalmente dos  e dos Holocausto Canibal. Os primeiros, mesmo que prejudicados por um som menos poderoso do que seria desejável, mostraram-se em boa forma neste regresso à actividade e puseram tudo ao pontapé com o seu punk hardcore pouco dado a modernices desnecessárias. Quanto aos segundos, devem ter convencido muita gente de que a resposta à pergunta “faz sentido meter uma banda de death/grind no milhões” é “sim, muito!”. Primeiro de quatro nomes escolhidos pela SWR, os Holocausto Canibal mostraram-se em modo “máquina bem oleada”, eles que acabam de regressar de uma tour europeia de promoção a Gorefilia (álbum lançado o ano passado) e que os levou ao conceituado Obscene Extreme, tendo levado largas centenas de pessoas a uma incessante sessão de pancada durante o concerto. No fundo, duas actuações e reacções às mesmas que testemunham a capacidade do festival em atrair pessoas dos mais variados quadrantes musicais. [LP]

Depois das sonoridades mais erosivas, a noite pedia os paladares sonoros vindos de africa, para agitar as ancas e suavizar os movimentos. Claiana é um projecto que um crooner chamado Gui, que nos mostra as suas divagações vocais quase imperceptíveis ao ouvido mais atento (será do álcool?) por entre os seus passos de dança mágicos. O afrohipsterismo latente transforma o arraial da Taina numa mega festa de luz e cor. O beat tropical é a oportunidade para movimentos ousados, alegres e quase libidinosos, pedindo o roça roça enquanto assistimos ao show do Van Halen de Cabo Verde. A mutação musical da noite fez-se para algo mais sofisticado e cerebral apesar de igualmente tropical. A dupla composta por Bruno Silva e Carlos Nascimento constitui os Sabre, interessante projeto de electrónica responsável pela dança continuar enérgica e onde os sintetizadores libertam sons altamente gingáveis que cortam os silêncios com uma lâmina bem afiada. Servem bem as ancas de quem assiste e o cansaço parece esquecido por mais uns minutos (num set curto) perdurando a rave. A noite termina ao som dos djs da casa. O destaque vai para DJ Quesadilla e Tojo Rodrigues, parte integrante de TOFU, que encontram vinis empoeirados e lhes dão vida num set que mantém a toada mestiça da noite, cheia de ritmo e vivacidade. [CT]