Mike Patton é um bocado chanfrado. É caso para dizer: olha a novidade! Pois, a um tipo capaz de provar as próprias fezes não se pode chamar outra coisa se não isso. Menos mal, logo após o fim dos Faith No More, deu-lhe na cabeça e mudou-se para Itália, tendo se mesclado entre os nativos.

Dessa experiência, acabou por apaixonar-se pela tradição das composições orquestrais italianas dos anos 60 e 70, e irrequieto, logo sentiu que precisava de testá-las com o seu cunho pessoal e inimitável. Assim nasceu Mondo Cane, um Mike Patton armado em António Calvário ou Tony de Matos, talvez alguns correspondentes cá do burgo dessa tradição referida.

Inicialmente Mike Patton apenas pretendia executar as músicas que compõe Mondo Cane em actuações ao vivo, e a ideia de álbum não estava assim nos planos originais. Sem existir uma explicação clara, o vocalista dos Faith No More decidiu alterar os planos e gravou de rajada cerca de duas dezenas de composições da mais fina flor da tradição pop orquestral italiana, e pela grande quantidade e qualidade, decidiu queMondo Cane teria um gémeo siames, ou seja, partiu as músicas entre dois registos.Mondo Cane terá então sucessor em breve.

Não muito conhecidos de qualquer público que não seja o italiano, muito menos então das gerações mais novas, cantores como Gino PaoliLuigi Tenco ou Fred Bongusto, não esquecendo o grande compositor Ennio Morricone, famoso por ter composto bandas sonoras de filmes como O Bom, O Mau e O Vilão, levam o tratamento Patton. À partida, a ideia do que podem ser as canções contidas em Mondo Cane liga-se ás premissas de coisas desenvolvidas por Mike Patton como Tomahawk e Fantômas. No entanto, desiludam-se porque o que se pode encontrar é uma interpretação mais fiel aos originais. Assim, não encontramos os habituais devaneios vocais, nem as estridentes experiências com alguma tecnologia de amplificação da voz, tão pitorescas do Mr. 1000 Voices. Pelo contrário encontramos um Patton empenhado na busca de uma intensidade vocal que embora fiel ao original tenta transbordar esses limites e transformar um pouco essa tradição.

Os fãs do vocalista de Mr. Bungle são capazes de ficar um pouco atrapalhados com o que vão encontrar. Ainda assim, podem sempre saber como soa um homem que soma mais uma voz ás suas já  mil vozes. Voz embalada pelas doces baladas de uma Itália pop orquestral. E não percam a esperança, ainda podem vê-lo a cores no próximo Sudoeste 2010.