Às três é de vez, como se costuma dizer. Este Gold não foge à regra, pois, finalmente, os Men Eater acertaram em cheio em tudo aquilo que tinham de acertar: descobriram a sua identidade, lançaram um álbum coeso e coerente e, acima de tudo, continuam com malhas boas como o caraças. Mas vamos por ordem.

Desde o primeiro EP, homónimo, que o maior ponto de interrugação nos Men Eater se encontrava depois da expressão “para onde ir”. A verdade é que o quarteto liderado por Mike Ghost e Carlos BB sempre fez coisas muito diferentes e, no geral, sempre o fez bem – no entanto, a excelência é precedida, também, por coerência. Se, sua na incessante procura de identidade, os lisboetas conseguiram um primeiro longa-duração cheio de polaridas, mas bom, no Vendaval, a mudança de rumo para o sludge e para o stoner deixou para trás os melhores momentos deHellstone. Curiosamente, era aí que estes rapazes se afirmavam e é neles, claramente, que se inspiraram para atacar forte e feio com Gold.

Não se deixem enganar pela minha verborreia: os Men Eater ainda são uma banda de riffs que pede muita coisa emprestada tanto ao stoner, quanto ao doom e a géneros mais extremos do metal. Dada a fórmula que os lisboetas usam para executar este melting pot, por vezes tão semelhante à dos malogrados ISIS, a etiqueta que melhor lhes fica é o post-doom, tão bom como aquilo de que se mostraram capazes na música homónima de Hellstone. É essa a identidade de Gold e a melhor faceta dos seus autores.

Assim, do riff épico de abertura de Illusion One, a primeira faixa deGold, a The Golden, com a sua lentidão devastadora, no equilíbrio do músculo grave de guitarra com baixo e de melodia gritante na guitarra mergulhada em delays e no jogo de vozes e coros no fundo, o novo álbum dos Men Eater mostra-se como um todo que não deixa esmorecer a energia que se acumula nos seus grandes momentos, quer seja nos momentos de abanar a cabeça, ou de simplesmente fechar os olhos, do single Sustain the Living, ou o saxofone maravilhoso de When Crimson Trips.

O segredo de tudo isto, explicou-nos Mike Ghost em entrevista, não é só a nova formação da banda (guitarrista e baixista novos, de há um ano para cá), ao qual muito se deve, mas é também o método de explorar as músicas ao qual chamaram “expansão mental.” Cada composição foi trabalhada calmamente para lhe acrescentar os momentos de contemplação que surgem com tanta fluidez ao longo do álbum, em crescendos ou mudanças de ambientes. Aliás, não seria de estranhar que músicas como 4:44 AM tenham sido, pura e simplesmente, fruto desse trabalho – e é só uma das melhores malhas do álbum.

Isto também permitiu que cada instrumento desempenhasse o seu papel, sem sombras para dúvidas, e libertasse os demais do cargo de segurar a música. As canções, em Gold, estão bem seguras e há espaço para que uma guitarra trata da riffaria pesada, enquanto a outra nos atira com imagens e paisagens para os olhos, como acontece Broken in Fiction; há espaço para que o baixo deixe de ser um mero suporte e se destaque (uma verdadeira novidade na carreira destes senhores), algo tão nítido em The Ground Beneath The Ground We’ve Been.

Pode-se dizer que demorou, mas não se deve ignorar que aconteceu finalmente. Os Men Eater demoraram seis anos a acertar as suas contas e a trazer um álbum que seja incólume, cheio de picos e sem depressões, algo em que Vendaval havia falhado redondamente, mas no Gold conseguiram-no praticamente sem mácula. Este está votado a medir forças com os melhores do ano, nos tops.