Há noites e noites. E naquela, sábado último, o Musicbox serviu idealmente os propósitos caprichosos do breu, já nele comum, que se adivinhavam. Mesmo a sensação de vazio, pela parca e desfragmentada plateia, aquecendo a sua sombra na prostração atónita contra as paredes de masmorra, foi um ingrediente no ambiente. As expressões franzidas quando já não faz sentido abanar o corpo, encadeadas por feixes de luz branca intensa que perfura o escuro, tornando-as assustadoras, fantasmagóricas, vistas desde a frontline ao limite da sala. Mas na verdade era cepticismo e estupefacção. A razão não está, contudo, e talvez para espanto geral, em podermos ocupar um parágrafo – o que declinamos – a categorizar a banda segundo as convenções vigentes (algumas ainda com tinta fresca) da música moderna. Vamos apenas dizer que um concerto de Mécanosphère não é indicado para dates nem para pessoas que tenham feito demasiadas misturas ao jantar ou que sofram de ataques de pânico.

Mécanosphère @ Musicbox, LisboaPart 2

Mécanosphère @ Musicbox, LisboaPart 2

Mécanosphère @ Musicbox, LisboaPart 2

Mécanosphère @ Musicbox, LisboaPart 2

Adolfo Luxúria Canibal, profeta, boca meio aberta, dentes apontados, com o olhar semicerrado para a primeira do seu monte de folhas de papel. Ninguém ousa enfrentá-lo de fronte ostensivamente. Pelo menos ali, no palco. Há uma capa de erudição que gera respeito mesmo sem o reclamar, um manto de loucura desconhecida, inexplorável. Um indivíduo comum e urbano a entrar pela porta da frente, quando chegara a hora, de casaco de cabedal e ganga, bota preta reluzente porventura engraxada no Rossio, pousada no tripé com os seus poemas empilhados.

Mécanosphère @ Musicbox, LisboaPart 2

Mécanosphère @ Musicbox, LisboaPart 2

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

O grupo, encabeçado pelo vocalista dos Mão Morta, desde 2000, e fundado pelo francês Benjamim Brejon, percussionista e manipulador de electrónicas, em 1998, por cá radicalizado, mas de incumbência internacional. Colaboraram com membros do colectivo norte-americano Radon, onde se destacam o saxofonista Steve Mackay dos Iggy & The Stooges e o percussionista Scott Nydegger, bem como com o multi-instrumentista Jonathan Saldanha ou o baterista Gustavo Costa, provenientes da cena electrónica do Porto. Em 2001 editaram o mini CD “Lobo Mau”, estreando-se depois com um álbum homónimo em 2003, retornando no ano a seguir com “Bailarina”. E em 2006 “Limb Shop” encerrou a denominada trilogia de Mécanosphère, que já faz quinze primaveras. Um vocábulo raro, com dois acentos, em sintonia com o colectivo, que concretizou em palco algo a que se pode apelidar de culto, considerando igualmente o seu historial. Apresentaram nesta noite “Scorpion”, o seu novo álbum, recentemente editado.

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

A performance ao vivo de Mécanosphère extravasa largamente as versões de álbum, aproximando-se de uma experiência sensorial de limites, levando ao extremo o caos sonoro, a tempos mais noise do que o dito barulho. Com ligações perfeitas entre os momentos cáusticos e ambiências que coadunam o seu afrouxar, com uma certa e incontida espécie de conforto, que faz surgir a próxima música. Tudo executado na perfeição, não se ouviu um prego. O som tem origem em batidas e linhas de baixo minimais e ritmadas, típicas do rap, por cima de alicerces de industrial, que vão subindo de andar em andar até minutos de apoteose com a intrusão de mais elementos. Henrique Fernandes, com o contrabaixo eléctrico – que nos pareceu customizado – mais como se fosse um baixo-contra-baixado, retorna da vaga inicial da banda. Hoje com mais músicos, o que torna a performance ainda mais apoteótica: com João Pais na bateria, Manuel Neto no saxofone, Rui Leal no baixo, André Coelho na maquinaria e Benjamin Brejon também nas maquinarias e bateria – é quando troca para a última que a encruzilhada sonora se adensa.

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

Mécanosphère @ Musicbox, Lisboa Part 1

O passear cavernoso das cordas vocais de Luxúria Canibal pelas nossas espinhas dorsais, o sistema nervoso central a estalar: duas baterias, baixo e contrabaixo eléctricos, grotescas camadas de som em loop, um músico convidado atrás de um misterioso teclado, e na cacofonia generalizada os gritos apavorados e estridentes do saxofone. Ouvia-os na perfeição a bater com toda a força nos instrumentos, nas cordas, nas teclas, as baquetas nas peles sintéticas das baterias. Houve mesmo quem fosse ao chão, durante um desses momentos em que a audição é elevada a patamares não classificados, gerando algum alvoroço, pois tratava-se de um indivíduo alto e de porte entroncado cuja remoção foi morosa, enquanto em palco Adolfo Luxúria Canibal, perante o manancial sonoro à sua volta, olha para as suas páginas com atenção e coloca-as por ordem antes das derradeiras vociferações. «Pela Europa fora os telefones tocam! E os funcionários passam mal!».