Hoje em dia, diz-se muito que há concertos que são “viagens”. Sensoriais, emocionais, sonoras, seja o que for. Concertos que realmente tocam e ficam na memória, não tanto pela técnica do músico ou por um pormenor assim tão óbvio, mas antes porque a própria música em si tem, de facto, uma alma do tamanho do mundo.

É um elogio gigantesco, que deve ser feito com cuidado. E que assenta, que nem uma luva, ao concerto de Max Richter no Teatro Maria Matos. Já se esperava que assim fosse, claro: música orquestral, onde o piano e os violinos são os senhores, e onde camadas se vão construindo sobre camadas, por vezes num minimalismo repetitivo e imponente ao ponto de lembrar Phillip Glass. Diz-se aqui concerto de Max Richter, mas na realidade quem merece mais crédito é, acima de tudo, aquele grande quinteto de cordas, que interpretou na perfeição cada música, com Richter a tocar muito ocasionalmente ao piano e a ir colocando samples no seu Mac. Cinco músicos que mais pareciam uma orquestra. Impressionante.

A estrutura do espectáculo, dado perante uma sala lotada (e com um público devoto e respeitoso, que por vezes até parecia ter medo de aplaudir), foi o protótipo do que um concerto deve ser: uma primeira parte onde se tocou o disco novo, Infra, do início ao fim, e uma segunda, após um intervalo, dedicada exclusivamente a canções mais antigas. Um golpe inteligente de Richter, que deu assim um concerto a roçar as duas horas, com um alinhamento que não há-de ter desiludido nem os fãs mais recentes, como os mais antigos.

Aliás, aquela primeira parte teria valido por si só a noite. Infraresulta espectacularmente bem ao vivo, envolvendo (por vezes, até comovendo) o ouvinte, em tons ora melancólicos ora mais surreais. É uma viagem sensorial, acima de tudo, que envolve por todos os cantos (aqueles violinos…) e transporta o espectador para um universo quase independente do nosso. As canções foram tocadas sem pausas, uma a seguir à outra (e aqui, sim, Richter e o seu Mac tiveram um papel importante), e viveu-se quase que uma longa sessão de hipnose.

Perto de uma hora extremamente coesa e quase a soar a conceptual, com uma interessante preojecção de vídeo atrás, que fez com que a noite soasse logo a vitória. Sejamos honestos:Journey 4 teria valido, por si só, o preço do bilhete. Mas os melhores momentos estavam, tal como se esperava, guardados para a segunda parte.

Richter e restantes músicos entram em palco, com o compositor a apresentar rapidamente o quinteto (foi a única vez que disse algo ao longo de toda a noite), e de imediato se ouve aquela que é, talvez, a sua mais bela e arrebatadora música: On the Nature of Daylight, do incrível The Blue Notebooks. Os violinos começam, os olhos enchem-se de lágrimas, e rezamos para que a noite não acabe.

Perto de uma hora que passou pela sua restante discografia, onde se sentiu falta da coesão da primeira parte, mas onde os melhores momentos compensaram por completo isso. Ocean House Rain, deHenry May Long, foi um momento magnífico, por exemplo, tal como a triste Embers, de Memoryhouse; momentos que superaram qualquer um da primeira parte.

No entanto, o melhor estava guardado para o final. É difícil explicar por palavras o quão arrebatadora e apoteótica foi The Trees, a penúltima música de The Blue Notebooks, a verdadeira explosão de som e sentimento da noite. Foi aqui, acima de tudo, que vimos bem a forma como Richter domina tão bem o piano, com as suas melodias simples mas belas (a inspiração em Phillip Glass é óbvia, e este é talvez um dos maiores adjectivos que lhe podemos dar), que se aliaram a uma autêntica explosão de cordas que fez certamente cair muitos queixos e muitas lágrimas na plateia.

Um crescente sem fim, absolutamente inesquecível para quem o viveu. Uma viagem emocional, ao longo de duas partes, ambas espectaculares. Concertos assim, que verdadeiramente transportam e comovem (On the Nature of Daylight é, realmente, de ir às lágrimas) são raros. Abandonou-se a sala com a sensação de termos sido verdadeiros privilegiados, de termos tido a sorte de assistir ao concerto a que assistimos. Mais uma vez, explicar por palavras uma noite assim, tão bela quanto por vezes melancólica, é difícil. É, efectivamente, música que se sente, que não pode ser propriamente descrita, apenas sentida. Costuma-se dizer que as coisas mais belas da vida são aquelas que não podem ser explicadas. Max Richter confirma isso mesmo. Inesquecível.