Foi uma surpresa, assumida na forma da performance tão especial de Matana Roberts, que o fim de tarde de domingo tinha reservada para a centena e meia de pessoas que se deslocou até ao hostel da Rua Miguel Bombarda, no Porto. O que todos sabíamos era simples, mas insuficiente para preparar a catarse que tomou conta de todos os corpos que aqueceram a pequena sala do Gallery Hostel: era certo que Matana tinha passado no dia anterior pela ZDB, e recolhia um duplo selo de qualidade de duas das melhores promotoras de concertos do nosso pequeno cantinho da Europa (sim, acrescente-se Amplificasom ao concerto do Porto); que iria actuar apenas com o seu saxofone alto, que haveria outros interessados em ver a sua actuação. Até que ponto seríamos tomados pelo carisma da norte-americana se soubéssemos o que nos ia fazer? Ninguém quer saber.

Interessa, antes, saber que um saxofone, a sua voz, um projector e uma audiência são elementos mais do que suficientes para um modesto concerto. Mas na sua modéstia solitária, Matana Robertssurge como um colosso – e assim encheu a sala, a qual se mostrou capaz de receber uma enormidade de almas maior do que seria esperar.

Entre o som da palheta e as dissonâncias, a senhora do free jazz elucidou os presentes sobre as razões da sua presença durante a actuação, alternando tudo o que tinha ao alcance do seu génio para construir um concerto cheio; um concerto com poesia, coros (que nem uma Frank Zappa, Matana conduziu a sala para num afinado, ainda que fora de tempo, coro sobre o qual improvisou, recitou e cantou) e, claro, as diatribes de saxofone na boca à moda do bop libertário.

No final, e perante uma audiência rendida, ficaram, de imediato, as saudades. Mesmo que seja uma bela falsidade, a de que “saudade” é uma palavra que só existe na língua do fado, será um momento do verdadeiro para todos os presentes naquele momento e que, certamente, será levado pela própria Matana Roberts, Europa dentro. Por cá, também se guardou algo. Ao jeito de paráfrase da poesia da norte-americana:

Pictures are nothing but fading memories
Yet they remain in the heart
Never to grow apart