Matana Roberts - "Coin Coin Chapter Three: River Run Thee"
8.5Constellation

Kenosis; ou o exercício do auto-esvaziamento. A moral cristã exalta o sacrifício pro deo, o acto de tornar o eu desprovido de vontade para usufruto pleno de Deus. Ser oco é ser maior. Especulando, talvez a arte, o nascimento espontâneo da arte, se assemelhe àkenosis. Teorizá-la, engavetá-la e explicá-la conduz-nos a umaterre sans homme. O engodo semiótico faz-nos perder eficácia. Entender um disco é não entendê-lo. Ponto. Percebê-lo é excluí-lo, eliminá-lo e criar por conseguinte uma segunda entidade – o nossodisco.

A arte materializa-se na auto-consciência da kenosis. Estar ciente do nosso vazio e, sincronicamente, escutar o silêncio divino, provoca uma necessidade: a do preenchimento. Numa exacerbada reacção imunitária, o corpo desenvolve respostas para o que podemos redutoramente classificar como deflagração existencialista. A arte, e não são poucos casos onde ela ocorre, então surge como histamina de primeira vaga.

O surto existencialista – porque há algo adiante ao invés de não existir coisa alguma? – acabará eventualmente por se revelar umpozzo senza fine. A argamassa utilizada para nos materializarmos revelar-se-á de fraca resistência à erosão. E, como de fácil maneira se compreenderá por repetição empírica, a tal deflagração não se traduz numa ocorrência metafísica onde se aplique a máximasimilia similibus curantur. Estamos invariavelmente sós, presos como Sísifo.

Matana Roberts isolou-se e reconheceu o seu processokenosístico. Faz dum barco a sua casa em Sheepshead Bay, ao largo de Brooklyn. Um microcosmos seu onde o saxofone só toca pela ânsia de silêncio – o nosso, o próprio, juntando-o ao de Deus. A arte é um grito que pede o fim. E Matana pergunta em “All Is Written”: «Why do we try so hard?”.