Com a vinda de uma banda como os Master Musicians of Bukkake (MMoB) a estes lados, não há como não fazer uma retrospectiva do que nos vai atingir: a sua música é descrita por muitos como algo avant-garde e world music, por outros como música cerimonial colectiva, mas posso adiantar-vos que, acima de tudo, é uma experiência para recordar.

Começar a meio daquilo que é uma trilogia (Visible Sign Of The Invisible Order,Totem One e Totem Two) parece não ser o meio indicado para isto, mas há sempre a justificação de que estes senhores, que revertem lógicas com a sua lógica, nos permitem fazer as coisas ao contrário. Ou, antes, de forma algo aleatória.

Os Master Musicians of Bukkake, com a sua perspectiva drone e a incidência de sons graves, com batidas dispersas e tribais, proporcionam uma viagem única. Totem Oneé isso mesmo, um percurso pelos confins mais escuros da mente do ouvinte, pelo que me é completamente impossível dar um mapa ou uma descrição do trajecto que cada um vai fazer quando experienciar MMoB. Ou seja, este texto assemelhar-se-á a uma brochura turística com frases soltas e meio vagas do que um local pode proporcionar, é verdade.

Balançando entre a negritude e o puramente zen, os Master Musicians conseguem o muito difícil, ou pelo menos provar que aquilo que eu julgava impossível é bem provável: juntar sons que relembram várias regiões distintas do planeta, que nos remetem para um oriente cheio de especiarias ao mesmo tempo que nos sentimos entre índios norte-americanos a fumar um cachimbo da paz na escandinávia dos vinkings, sempre com essa perspectiva, tão do hemisfério norte, que é fazer música lenta e pesada. É, aliás, esta complicada premissa que desbrava toda uma floresta de obstáculos lógicos à música destes mestres executantes, membros de projectos como GrailsEarth Burning Witch.

Totem One é, por isso mesmo, um acumular de energia, à moda das obras-primas da erudita, que, antes mesmo de uma acalmia final, atingem um êxtase épico – com a grande diferença de que, aqui, a música atinge um culminar verdadeiramente animalesco e tribal, mais conhecido como Schism Prism/Adamantos, com momentos que facilmente nos despertam recordações das influências rock, um tanto ou quanto progressivo, que se acreditavam perdidas entre estes senhores.

Quando chega a vez de Eaglewolf, a calma e a tristeza com que a paisagem é pintada leva mesmo a perceber que o fim da viagem chegou. Um final que nos remete para as marchas mais tristes que nos possamos lembrar. É, aliás, aqui que a música cerimonial colectiva ganha uma força demovedora.

Este é um álbum que tem um impacto único do princípio ao fim. Mas não há como ouvi-lo até ao fim e perceber que se sobreviveu a uma das experiências sensoriais mais negras das nossas vidas. E depois passar pela vergonha de tentar contá-las…