Das tapeçarias ao monumental gongo, os Master Musicians of Bukkake apresentaram um palco, tanto em Lisboa como no Porto, que parecia obra de um sonho místico. Ora abençoado pelas mãos hinduístas, ora ornamentado com o aroma árido dos desertos mesopotâmicos, o altar onde os sete músicos se apresentaram foi um dos pontos fortes da actuação do grupo.

Os próprios membros da banda não descuraram o visual, como seria de esperar. Envergando assertivas túnicas, bem acompanhadas pelos clássicos turbantes, os Master Musicians of Bukkake revelaram-se, aquando da entrada em palco numa marcha lenta ao som de sinos, puros cavaleiros das dunas do Saara. Os óculos escuros, usados paradoxalmente no espaço sombrio da ZDB, funcionaram como uma barreira entre o público e os músicos, mantendo o suspense e conferindo um tom secreto à actuação (e, claro, dando aquele toque surf de uns Secret Chiefs 3: quem é que gosta de incenso e não gosta de mar?).

O vocalista, B.R.A.D. (Burning Witch), actuou como uma espécie de Attila Csihar, pisando o palco, no início, com uma máscara a relembrar um totem e a puxar pela faceta performativa da banda, que, de resto, foi intensa do princípio ao fim, principalmente nas músicas mais “meditativas.” Era nestas alturas que membros diferentes do grupo se iam cumprimentando, através de cerimoniosas vénias, como que a marcar o diferente papel que iam desempenhar, então, nos temas. No entanto, é preciso mesmo sublinhar foi o vocalista-feiticeiro-que-lidera-cerimónia, entre espasmos e brincadeiras com marionetas,que conduziu ambas as audiências através da viagem transcendental que foi o concerto de Master Musicians of Bukkake.

O concerto começou com a faixa de abertura do mais recente Totem TwoBardo Chonyid / Master of All Visible Shapes, numa cerimónia levada a cabo com os mais cuidados preparos, que acabaria por levar à mais progressiva, pesada e intensa Schism Prism / Adamantios, já de Totem One. Este foi o momento decisivo do concerto, que mostrou que estes não são uns fritos quaisquer e que há toda uma escola de doom e drone na sua música oriental. Distorções levaram a distorções, levaram as duas baterias ao seu extremo e o violino ao papel de gritar melodias naquilo que foi uma verdadeira amostra de peso persa.

Randall Dunn e companhia alternaram o alinhamento do concerto entre as músicas ditas mais contemplativas e as mais festivas, estas com proeminência das baterias, centrando-se essencialmente no álbum editado este ano, Totem Two, que faz uma combinação mais natural entre os elementos de extremos que ligam a música destes senhores.

O desfecho, à semelhança da cerimónia lúgubre que deu início às festividades, aconteceu através de Eaglewolf e dos seus cânticos estridentes mas tristes. Os Master Musicians of Bukkake, abandonado os seus instrumentos, muniram-se novamente dos sinos e, novamente numa marcha lenta, abandonaram o palco, só com as suas vozes a ressoarem, até desaparecerem no backstage e se fazerem deixar de ouvir.

Em Lisboa, perto do fim da actuação, B.R.A.D. abrilhantou (literalmente) a sala com os seus anéis luminosos – impossível não relembrar os lasers do vocalista dos Sunn O))) e dos Mayhem.

Na retina ficará, também, o momento em que o quadro eléctrico da ZDB foi abaixo, deixando a banda a contas apenas com suas próprias vozes e percussão. Sem qualquer receio, os músicos lançaram-se de imediato num cântico em uníssono, acompanhados por duas baterias tribais, até que a electricidade voltasse a alimentar os restantes instrumentos.

Por seu lado, no Porto, o concerto teve direito a uma primeira parte diferente e cinematográfica. Uma curta-metragem de 20 minutos, de quem dá uma no cravo e outra na ferradura, sobre o conflito israelo-palestiniano centrado no famoso Muro da Cisjordânia foi projectada na parede atrás dos instrumentos todos, alertando os presentes para uma questão problemática, através das diferentes facções, ao mesmo tempo que ajudava a localizar geograficamente o concerto que se seguia.

O cenário quase fúnebre do fim do concerto e a sua procissão de despedida acompanhada por sinos foram, também, acompanhados com toda a atenção por parte da audiência bem composta, que permaneceu em silêncio mesmo até ao fim (fora um ou outro que decidiram ceder à tentação e cantar com a banda na sua versão de voz estridente), até irromper numa longa ovação. E, durante alguns minutos, ninguém se atreveu mesmo a levantar, à espera de que houvesse um encore que seria merecidíssimo. Coisa que fica para uma próxima vez (esperemos que ela não tarde).